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Nov20
JOSÉ CARLOS COSTA MARQUES - TRIUNFANTE CARNIFICINA
Uma voz profética ergueu-se da carnificina.
Voz que prega no deserto, voz que entre vozes não se ouve,
voz vinda do fundo abissal onde a raça humana se ergueu
do nada para o quase nada,
e aí se instalou na carnificina contínua a que chamam história
universal, local e indecifrável,
sem horizonte para além do sangue sobre a própria espécie
e sobre todas as outras, vegetais e animais
e virais e microbianas,
com ela obrigadas a conviver e a suportar
o insuportável jugo da triunfante vencedora.
Que história pode sobrar ainda
das que foram vencidas,
– vermes, aranhas, borboletas,
pombos viajeiros, elefantes,
mansíssimos leões bravios e os tigres –
submetidas aos pés da vencedora humanidade,
no seu triunfo tiritando,
enregelada de pânico perante um inapreensível ser semivivo,
talvez por ela própria suscitado ou mesmo produzido?
O deserto, o deserto sem apelo, o fogo, a floresta incendiada,
os gelos derretidos, o sangue humano derramado,
o sangue vegetal ignorado,
o sangue mineral,
ó tu pedra que Pascoaes amou e quis chamar junto de si,
e tu irias,
que mais virá a sufocar a vida não humana,
a própria vida humana dos vencidos por outros humanos,
a barbárie glorificada pela ignorante cultura,
pela ciência desta época que amanhã
será mitologia,
a massa sangrenta a ressumar das esponjas que enxugam séculos
e milénios e ao nada nos conduzem,
na ponta da pacífica buldózer feita de aços bélicos reciclados,
e tão violenta como eles rasando vertentes, minas d'água e socalcos,
onde, quando, compreenderemos nós os bárbaros
e os que nos julgamos civilizados,
quando entenderemos o grito dos vencidos,
dos judeus bosquímanos, dos ciganos judeus,
dos lapões pastores de renas,
das inumeráveis abelhas e aranhas
sacrificadas,
de rastos diante da húbris da espécie triunfante,
vencedora,
glorificada,
cega perante toda a aniquilação que a transporta.
José Carlos Costa Marques
Porto, 14 de outubro de 2020
Verso 1 «Over the Carnage rose Prophetic a Voice», in Drum Taps, de Walt Whitman.
Verso 2 Uma voz entre vozes, Porto, 2017, livro do autor do presente poema.
Versos 30-31 «A ciência de uma época é mitologia para as próximas», Kepler,
citado por F. Carvalho Rodrigues, físico e professor, em prefácio de 7 de setembro de 2020
à reedição facsimilada do livro Vida, Espírito e Matéria,
de Erwin Schrödinger, traduzido por G. F. Sacarrão.
Verso 34 Alusão à palavra de ordem pacifista «fazer das armas arados».