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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

06
Nov19

ANTÓNIO MIGUEL FERREIRA - VÉSPERAS DO FIM DO MUNDO

 

Os vendedores de epitáfios fizeram fortuna
E nem os profetas deixaram de comprar mais dias ao destino.
Se pensar a altivez do céu é ponderar absolver a terra,
Ainda no arrependimento de todas as coisas sensatas,
Omita-se a cura para os que se oferecem em sacrifício.
Fechem os olhos no ressentimento de tudo o que deixam para trás.
Ainda no último inverno, no regresso da tempestade,
No auge deste fim, mil homens de outros tantos exércitos
Mataram-se para inocentemente não perecerem.
Aqueles que defendiam que do caos sobrava sempre uma semente
Foram convidados a redescobrirem os alicerces desta cidade.
De uma germinação é tudo o que antes se necessitava,
Quando esta terra era a única escolha possível!
Mas todas as flores perfeitas já foram colhidas
E o matutino de hoje já trouxe o obituário de todos nós.
Apenas os abutres, na sua sábia ignorância,
Ainda pertencem a este céu carregado.

O fim do mundo será televisionado
E no ressurgir da Atlântida perdida
Os profetas dilacerarão a fome uns aos outros.
Porque o homem aprendeu demais
As ruínas da primeira escola foram amaldiçoadas.
A revolução marcada para a madrugada de amanhã
Foi suspensa embora sem que ninguém tenha renunciado ao poder.
Todas as criaturas estão proibidas de parir
E dos assuntos do coração nem se pode falar!
Os hospitais só estão abertos para tratar de alergias.
Quem se quer despedir que o faça depressa
Que quando se olhar para trás já será tarde!
Por esta hora não se encontra um restaurante
Que sirva uma refeição digna de um esfomeado
E em todos os lares há um cozinheiro
Que convidou doze vegetarianos para a última-ceia!
No desambicionar da carne cai-se de joelhos.
O mais poderoso dos venenos sempre foi a nossa saliva!
Mas não há aqui ninguém que traia o destino?
As praias estão desertas na premonição do mar
Embora se saiba que todos os barcos ficam por naufragar.

A criança que agora deposita um beijo na face de sua mãe
Presa ao espelho na escolha do bâton para o fim do mundo,
Não pergunta pelo pai suspenso pelo pescoço ao céu da garagem.


























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