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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

10
Ago19

EDUARDA CHIOTE - PAZ PROFUNDA

 

Lembro que no rés-do-chão da casa
funcionava um lar com pessoas super/degradadas e de eu ter
comentado ser preferível, para o bem delas, decidirem
morrer: outra seria a sua dignidade.
Disse-to.
Então, desdestruíste-me com brutalidade :- Mas quem és tu,
de costas quentes
e ar condicionado? Quem te disse que mesmo nessas condições
de humilhação e dependência, não preferem, ainda que à míngua
e à miséria e à insensatez de uma vida imprestável
condenadas; mesmo assim ,
sobreviver ?
Que merda de micro fascismo é o teu?
Na verdade, em verdade, irritava-te, amargurava-te
a minha insidiosa falta de
empatia.
Mas, o certo ...o certo....é que admiravas, em mim, o vertical
perfurar
despudorado
a pedra
de um coração
cínico.
E perfurá-la em desprezível dor
a ponto. De deixares de visitá-lo (como o fazias duas ou três vezes
por semana) ; sem ele, adeus travessas ajardinadas,
bons vinhos, entradas.
É certo!Tinhas o maior respeito pelo que ele ainda
sentia - escrevia. -
Somente te aborrecia
e tens razão,
dou-te toda a razão, a sua curiosidade - que achavas
despropositada - por questões que a ti nada
diziam: robótica, quântica, neurologia, bioquímica: tretas
de que ninguém percebe nada e muito menos
tu: dizias. - Onde estás, raivosa , zangada,
quem te entenderá as
mansas
fúrias, a indecorosa fraqueza,
a necessidade de um amor deixado sozinho, a impaciente
capacidade de tão
facilmente
perderes a prudência , poesia
agora apaziguada
pela des/importância de te não mais sentires
ressentida ou humilhada?
Que.Vou continuar a enviar-te memórias de ti
enxovalhadas
e no assombro e na mais dura acusação de me teres
e sem eu to merecer,
abandonado.
- Aonde estás, furibunda?
Acredita: - Sei também
das artes da traição que sentem
os que te não louvaram
o rigor e ousadia
de um severo criticismo. - Aonde estás e na purificação
animal à morte afeiçoada e im/perdoada
que te envio
e na paz,
profunda paz, paz profunda, a suspeita leitura
de uma adolescência
retardada; e, na potência de um amar
mal resolvido, o teres levado contigo uma das
limitações maiores
da minha vida.


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