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Mai19
MARGARIDA VALE DE GATO - VENCÍVEL ARMADA
A quanto nos obriga isto
seres de fibra anfíbia
tantas vezes avessa
(os estames atentos dos órgãos
ao génio torto, à armadilha)
se disfarçado no tabuado
cresce o suspirar da admiração?
Certo, outrossim, o ponto
anotador e guarda-versos
atira-nos certeira marcação
aceite sem pré-aviso
como aos oficiais a divisa:
ali a tribo, além a frágua de Hamlet
ali o sacrifício, além o altivo delírio
a podre paz aqui, ali o rosto do rancor, aí
uma maneira de dizer a dor
que de melhor molde a deforme
aí, do que senti-la
só que rigorosamente aí sorve
o mergulho, é a intuição
que primeiro nos mete
aos bordos aflitos no bote
que melhor nos parece
do que não mexer, brecha
quase com pequeno travo
a sangue, eflorescência.
Surpreende-nos, alijamos
de boamente, damos ao pau
as costas folgadas, as cócoras
rodando para nos medirmos
no tacanho salva-vidas
de resistente borracha, quanto
espanto
a perícia fintando o sismo
de chumbos, a descarga
do ciúme, o desferido melindre
a nossa insuflada camuflagem
a vaidade, crivo da vergonha
quase fácil, no fundo visto
de fora até enternece
depois que se fica sem pé
a boca aberta bem à tona
do oceano — para onde agora
que fagueira dormência que
estragados planos que trepidantes
os estilhaços da trincheira
(com que fogos
como quem nem muito quer
com que pouco sufoco
se desperta o gigante
com que desapego de esforço
com que entrega à destreza
do erro, a canção dos enganos)
entre borrifos abrir depois
os olhos os dois encarando-nos
com deliberação e susto
apontando, minimamente
ao inaugural devoluto