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Jun19
RAQUEL SEREJO MARTINS - ERUDIÇÃO ÍNTIMA
Sei da dor
quando o corpo me incomoda,
o corpo a decidir por mim.
Sei da alegria
quando fico incomensuravelmente triste,
a esperança a decidir por mim.
Sei da separação
apesar da vizinhança,
a distância a decidir por mim.
Sei da solidão
apesar da tua companhia,
apesar da amabilidade do amor,
a tristeza a decidir por mim.
Sei do silêncio
apesar da música do mundo,
a canção de um búzio a decidir por mim.
Sei da impotência
apesar dos gestos quotidianos,
o lusco-fusco a decidir por mim.
Sei do exílio
sem sair de casa,
o medo a decidir por mim.
Sei do Inverno
e do diospireiro depenado,
o frio a decidir por mim.
Sei de pássaros nenhuns
e do regresso das nuvens,
o vento a mudar de direcção e a decidir por mim.
Sei da espera
tenho uma janela, uma cadeira,
agulhas de tricotar e um novelo de lã,
o coração a decidir por mim.
Sei uma oração
que repito enquanto espero,
como se houvesse um Deus a decidir por mim.
Sei do sol
apesar do infinito das noites,
e que está um dia frio sem nuvens,
está um dia lindo de morrer,
também para morrer.