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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

17
Jul19

ADRIANA CRESPO - HOMENAGEM A RIVERDAY, DE ORLANDO I

 
 
 
 
 
 
Olhas para uma árvore e que vês tu,
Riverday, quando olhas para uma árvore?
Não olhes demais porque assim
ficarás presa por um feitiço
ao novelo de tudo o que pensas
quando olhas para uma árvore.
Novelo ou cobras e desse novelo infinito
saem tantas visões e animais
e máquinas aterradoras que não há caminho
não há caminho entre a velocidade
de tantas ideias que são mais rápidas
que a construção de um universo 
e essa vaga e triste esperança
de chegar a um porto ou a qualquer lado.
Sim, minha querida amiga,
é melhor enfiar os dedos
nos teus cabelos que agora são curtos
e fortes como os de um rapaz.
Ata os atacadores dos teus sapatitos
e compõe a gola da tua camisa -
adoro estes jeans.
Não andes de qualquer maneira,
como se ninguém olhasse para ti,
nem penses que hoje ninguém
se cruzará no teu caminho.
Penteia-te e, pelo sim pelo não,
não bebas demais, não te deixes cair.
Observas tu, pequena Riverday,
que os ramos andam pelos céus
como os vasos sanguíneos
pela tua carne?
Ou que há qualquer coisa
de rosto, no eixo da simetria
da folha do plátano?
Minha querida amiga
que te moves entre a paradoxal inocência
de pensar nas coisas pela primeira vez,
diz-me se esse pensamento é feliz,
como a certeza de haver
um plano com um final
certo e cordial, encantador,
ou se é abissal e terrível
como a náusea de morte
que vem do vislumbre
de saber que entre o sangue
e os ramos e entre o sangue
e os veios da madeira
uma mesma máquina
opera infernal e cega
e em sentido nenhum
que as nossas pobres ideias
consigam descrever?
Pensas em Deus, criança?
Queres ver nos ramos apenas linhas
que sejam a vida sem desenho nenhum?
Mas que impossível é não pensar!...
Vamos subir os dois até ele,
de mãos dadas, por uma escada em caracol.
Vamos de fraque e vestido de noite,
como convém, em tal situação.
Eu visto o teu vestido de lantejoulas
tu o meu fraque e talvez com esta partida
despertemos o riso e a complacência
de Deus, quem sabe?
Deus dirá, quando chegarmos a ele:
«Olhem p´ra estes dois!... Que par!...»
Dançaremos de roupas trocadas
sobre nuvens azuis e rosadas
ou entre macieiras brilhantes num pomar
quente e perfumado, voluptuoso,
porventura - um terraço sobre a visão
de não alcançar visão nenhuma.
Pensas no combate surdo entre o vento
e o pôr-se de pé da árvore?
Ou nas partículas que dançaram
pelo infinito até chegar
a um tal ser?
E que partículas?
Que última matéria?
Onde está a massa da vida
e o trecho por onde podemos saber
o que fazer com ela?
O que fazer de absolutamente certo?
Jovem e adorável Catarina
que tantas vezes me deliciaste,
o teu corpo é mais que um ecstasy
ou que uma viagem em copos de gin,
mais que ser vela ou estandarte,
cascata de fogo ou pluma de alma,
mais que ser linha abstracta
em voo de pássaro assim é -
repetidas e demasiadas vezes -
o nosso miserável amor.
Não fazemos quase de nada de certo.
Andamos aos tombos pela tentativa de existir.
Não nos congratulamos.
Se houvesse guizos nas tuas orelhas,
e tu chegasses, a tilintar,
não me surpreenderia.
 
 
 
(Orlando I, in Alma de Rapariga,  Edições Sem Nome, Setembro de 2019, no prelo)

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