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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

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Jul18

ANTÓNIO CÂNDIDO FRANCO - ARTEAR

A arte é o ar mais o pronome pessoal na segunda pessoa do singular na forma do acusativo (complemento directo). O ar por sua vez é o fluido transparente, inodoro, insípido que constitui a atmosfera terrestre (Dicionário Prático Ilustrado, Lello & Irmão, 1972, p. 90). Quer isto dizer que a arte pode ser pura ou impura, sendo sempre reflexa. Se pura é constituída por muitos gases, sendo o oxigénio e o azoto os principais, na proporção de 21 partes de oxigénio por 79 de azoto. Há ainda vestígios residuais de outros gases como o néon, o crípton, o xénon e o hélio. Se corrompida, a arte é o meio propício para o desenvolvimento em galerias, agências, ministérios, centros de investigação, esquadras, quartéis, escolas e hospitais (v. Hospital das Letras) das partículas microbianas em suspensão, originando fermentações putrefactas, que, ao serem reflexas, penetram no pulmão e dão azo a doenças gravíssimas, que podem levar à morte.

A caixa poligonal estabeleceu há muito a lei da comutação das partes. Assim, o pronome pessoal reflexo da segunda pessoa do singular pode anteceder o fluido transparente que constitui a essência estruturante da arte e a partir do qual se detecta o seu grau de pureza ou impureza. Pela permutação, já conhecida na exegese bíblica, obtém-se a máquina para fazer tecidos entretida pelo tecelão. O tear começou por ser manual. Numa caixa vertical de madeira onde se dispunha a teia atravessava-se um fio que dava origem à trama. À imagem da aranha, Penélope fez e desfez desta forma o seu destino. Mais tarde chegou o tear mecânico, que dispensou o trabalho humano e recorreu à força motriz da pressão do ar comprimido. Hoje o tear é uma máquina eléctrica altamente aperfeiçoada pela técnica do vácuo. Os projécteis que atravessam a teia atingem tal velocidade no vazio do ar rarefeito que ficam perigosamente no limiar da explosão. O tear é assim a arte em vias de sufocar.

Da conjugação entre dois nomes nasce sempre um verbo. Temos assim neste caso o verbo artear que quer dizer colocar o artelho fora do curto-circuito das ondas hertzianas de modo a encontrar na próxima cabana o cão vermelho de Gauguin.