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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

19
Jan21

CRISTINO CORTES - QUATRO VELAS NO TEMPLO DE ESCULÁPIO

1.

 

Nesta minha idade ir ao médico é assim um tanto

Como quem se apresenta face a um juiz. Esperar

Pela pancada que nos vai dar. Sim, ele há-de encontrar

Algo para nos reprovar, e às vezes é um espanto.

 

Se não for uma coisa é outra, se tudo andasse bem

Diversa seria a natureza, não teria a velhice

Suas leis claramente estabelecidas… Grande chatice

Mas é assim, a idade não vai, antes a todos vem.

 

Sabe-se lá o que a cada um espera, o que o destino

Nos reserva. Combatem os doutores a doença, descalabro

Que lhe vem associado. Mas contra a morte, o cérebro glabro

Nada podem, e no fim chega a impotência do menino.

 

Dia após dia, é esta a lógica, e não pode haver outra.

Não desprezemos este escasso bem. Pena é a voz ser rouca.

 

2.

 

Eis o dia do juízo, final. O do bom clínico, entenda-se,

Sobre o que em futuro próximo, talvez, nos aguardará;

Depois de espiolhadas as íntimas entranhas nos dirá

Como a máquina funciona, condição última em que se encontra.

 

Do incómodo da posição, do acto em si não falarei.

Fadário dos homens que os deuses não levaram em jovens

Não sou excepção a esta regra, sei que os parabéns

São sempre provisórios, é bom e eu atento estarei.

 

Vou preparado para o que a estatística nos receita

Mas não tenho pressa de ser mais um cliente hospitalar.

Ouvirei sim, mas é prudente e avisado ponderar

O passo seguinte. Não se transforme a cura na maleita.                                                                             

 

Qual aprendiz de feiticeiro, da evolução futura

Aqui se trata. Oxalá não seja pesada ou escura.

 

3.

 

Completamente nu, humilhado, exposto e vulnerável

Devidamente picado, atado e mesmo entubado

Como alguém que num tabuleiro para o forno é levado

Começa finalmente a viagem, no mínimo pouco agradável.

 

Parece ser assim que agora se descobrem os achaques

Germinando em nossos interiores. Não é curiosidade

Nem a vã vontade de prever o futuro. É mais tarde

Do que cedo, aliás… Mas submeto-me, enfim, a tais técnicas.

 

O aparelho faz jus ao nome, bem alto soa e ressoa.

Nem com auscultadores no mínimo se reduz o ruído

Sinónimo do seu bom funcionamento. Mas eu não me fico

De ressonar não ando longe, qual rio que no mar se escoa.

 

E serve, tamanha investigação? Esse magnetismo

Pouco determina. Mas tranquilo __ se livre desse sismo.

                                                              

4.

 

Afinal parece que quando mal nunca andemos pior.

Continuamos com pena suspensa, mas autorizados

A encanar a perna à rã. Na maquineta os nossos dados

Não são preocupantes. O receio se foi em vapor

 

E um tanto mais alegres respiramos aliviados.

Até fui lanchar a uma pastelaria da tradição

Fazendo jus ao estatuto de candidato a ancião

E de boa vontade infringi preceitos consolidados.

 

Um dia não são dias e bem parecido com a maratona

É o que nos resta da vida, a prova de resistência.

Ser veloz já lá foi, agora é estender com paciência

Este guardanapo, as nódoas limpando com acetona.

 

Assim corresponda a alma, não falte o apetite, claro.

De fazer coisas, sempre em poesia. Do resto nem sequer falo.

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