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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

16
Dez18

DIOGO COSTA LEAL - " E AS VÁRIAS CORES DE LUZ..."

 

 

 

E as várias cores de luz e sombra na dança que abre as cortinas

E ajoelhar-me para ficar à mesma altura do afaga-céus de um bago de cerejas só pela textura

E abraçar um gato com as mãos bem abertas para que o amor não fuja

E olhar o retrovisor de um carro e ver mil imagens de vida disparadas por segundo e sorrir

por isso parecer um espelho sincero e mergulhável para a constante das nossas metamorfoses

E tremer muito no frio e ainda assim tocar as saliências de beleza feitas pelo nevoeiro

E olhar a minha cara num reflexo e rir-me pelas caretas possíveis nas rugas

rir-me por ser possível além de por dentro o corpo rodear-se de água sem ficar molhado

rir-me por amar-me muito

e não ter medo de o dizer até cantar para mim mesmo

porque a natureza

nunca faz pouco de nós

E ver pássaros em forma de ranhura na estrada

e onde pousaram prolongar-lhes um ninho

através de fruta

entre-lábios

E afagar o dorso de um cavalo o queixo de um gato a superfície do mar o exterior das pétalas

os pormenores da pele de quem se ama, e sorrir muito

por não querer metáforas que caibam para essas perfeições incorruptíveis

E dar banho a quem se ama e sentir rios cristalinos por cada ângulo

do grande corpo sensorial, precisamente por ser quem se ama

E acariciar o próprio pé direito com o próprio pé esquerdo enquanto se descansa

E coçar a barba com a língua

E poder apreciar o cheiro intenso do próprio suor

(comum a todos na glândula, apenas não tanto no seu gradiente de família)

E no meio claro dalguma solidão saboreada

sozinho ou em companhia,

ler um livro de poemas em voz alta

a conversar os versos doutros comigo mesmo e gostar de poder gostar disso mesmo

E na mesma solidão clara (solidão igualmente algo comum à glândula da humanidade

mas não tão comum no seu gradiente de família) poder gostar de abrir um piano

e desconhecedor de pautas e escalas

poder dançar em cada tecla no improviso criançado da descoberta dos dedos

a segurar o prazer nas orelhas,

mesmo nas desafinações

mesmo nos momentos indeléveis de silêncio

que servem só para criar espaços entre a ampliação das intensidades

E gostar de correr a galope com uma criança no meu dorso a fazer de animal

que é o mesmo que dizer ser o presente

E correr pelo jardim afora sem amanhã

que é o mesmo que dizer pelo coração adentro agora agora agora

E deitar-me aconchegado numa praia toda

doce, a praia

toda

por se estar abraçado a quem se ama e nos ama de volta

E trepar as árvores e abraçar um tronco agradecendo a presença a raiz os oxigénios

e as telas pilares dos poemas

E colocar dois grandes búzios no lugar dos ouvidos e nesses fones de sentida-geração

poder fechar os olhos e abri-los risonhos porque nenhuma voz responde,

nem a interior, mas só corpo só espírito

E fazer um desenho animado com folhas de outono

E brincar com a primavera

por termos chegado mais cedo

E utilizar os lápis de cera só pelo cheiro bom

E pôr protetor solar no inverno da pele

para que o cheiro deslumbrado do verão da infância não nos abandone

E gostar do som crocante que as maçãs fazem ao ser trincadas e as ameixas só pelo rasgar da pele

E ouvir uma música que se gosta muito e abanar o corpo todo em sintonia

porque ela está a compor-nos também a nós, inclusive em música

E fazer amor com quem se ama e agradecer às galáxias todas ao tempo todo o tempo todo

E amar o sabor do grande real disso poder incluir numa só substância partilhada

todas as pequenas grandes coisas de que se gosta e fala nos poemas numa só substância partilhada

E olhar olhos nos olhos frente a frente as essências bonitas e dizer-lhes

- raios te partam

para todo o lado bom

por não caberes

Tal Como és

em poema nenhum

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