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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

30
Jun18

EMÍLIO MIRANDA - POESIA É REDENÇÃO?

I

Nos lugares assinalados

Com a poalha dos teus passos

Faço um poema triste.

É bom que não te esqueças

De todos os invernos passados.

II

Pode haver tantas batalhas perdidas

Que acabes por duvidar que é possível vencer a guerra

Mas a vida é pela sua natureza

Uma sucessão de batalhas

E ninguém saberá jamais como termina

Por isso enquanto fores vivo

É sempre possível assinar a paz

Para começar uma guerra nova

Tantas vezes quantas achares

Que é possível vencer.

Haverá muito quem pense que és um derrotado

Ou que a desistência define a tua covardia

Mas ninguém poderá afirmar

Que conhece a tua vontade

Mais do que conhece a dos deuses.

Ou tão pouco que eles representem uma verdade

Mais válida do que a tua.

III

Entre nada e qualquer coisa, um pensamento apenas: tu!

E é com este pensamento que se constrói um mundo pouco maior do que este

Onde os dias se sucedem entre poemas vãos.

IV

A poesia é um alimento tão nutritivo

Quanto um prato de feijão ou um naco de carne

O importante é que não te empanturres

Ao ponto de ficares tão gordo que não atravesses o buraco de uma agulha

Lembra-te que se é fácil para um camelo passar por um

Mais fácil deverá ser que tu o faças.

Qualquer buraco de agulha

Pode ser uma entrada para o céu.

E lá chegado, não estranhes que haja outros camelos

Espantados por terem entrado

Há muitos a tentarem todos os dias

E muitos mais que entrarão!

V

A vida é uma incógnita, em todas as suas dimensões.

Se mais amares, mais amado serás? Se mais cruel, mais lembrado?

O mundo é um lugar estranho, povoado por gente sem paradigmas.

Por isso todos são plausíveis, e para ti haverá também um legado

Anunciando caminhos e soluções.

Mas o mais certo é que sejas tu a desvendar

Entre a muita terra e o muito mar

O lugar de paz ou de guerra onde serás nómada ou sedentário,

Pragmático ou sonhador

Vidente ou evidente. Ou, quem sabe, mais um entre tantos…

VI

Melhor seria que o alimento do corpo

Fosse tão etéreo como aquele que te sacia o espírito

Duas ou três palavras ditas ao crepúsculo

Ou quando despertas de uma noite sem sono

Tão reparado como se no lugar do coração tivesses um berço calmo

Onde dormisse a inocência que tinhas quando nasceste;

Duas ou três palavras ditas ou tão-somente pensadas

­­–­ Sussurradas para dentro do pensamento, leia-se –;

Duas ou três palavras inventadas

E transformadas em claríssimo verso.

VII

Já pensaste como são inconvenientes os dias em que acontecem mais coisas do que as que querias?

O quanto melhor seria se pudesses dizer: basta!

Mas isso seria como fazer chover quando faz sol. Com esse poder serias melhor ou pior?

E o mundo à tua volta teria mais luz?

VIII

Talvez a poesia não seja redenção

Nem sequer música para o teu espírito

Mas pode bem ser o fio com que teces os teus pensamentos,

Ou antes o tecido que pacientemente transformas em fio:

Todo o poeta é um alfaiate teimoso…

IX

É mais importante o poema ou o arado?

Melhor será que o comparado seja comparável

Ou que o poeta saiba ligar o que parece desligado.

E então, o poema transforma-se em chão e o arado pode cumprir a sua função

Como instrumento que faz brotar a palavra, liberta de significados adversos.

X

Toda a seara tem um semeador,

Mas nem todo o semeador é dono de uma.

Em tudo há poesia, até num mau poema, mas não se julgue que todas as verdades são apaziguadoras. Há muitos paraísos fundados em mentiras!

XI

Bom, talvez um poema não seja tão importante

Talvez mais tarde ou mais cedo possa existir lucidez suficiente

Para discernir entre tantas esta questão

Incógnita revestida de presunção que acompanha o pretenso poeta.

XII

Perguntas: O que sou com o que faço com as palavras?

Um semeador ou um arado?

Quando escrevo, arranco o que estava semeado

Ou semeio versos?

Sou um poeta ou um mentiroso?

XIII

E perguntas:

A vida é uma verdade cheia de mentiras

Uma mentira cheia de verdades,

Ou uma interrogação cuja resposta

Ignoras?

E o amor? Sabes do que falas quando

Falas de amor?

Ou trata-se de mais uma incógnita

Acerca da qual divagas?

Há muito quem julgue saber

Há muito quem erre sabendo

Há muito quem procure errando…

E tu: erras quando?

XIV

As sombras nascem à janela com o sol oblíquo

E espreitam dentro dela, sem pudor

Do ventre à mão aberta,

Enquanto uma voz

Sussurra:

Li

Berta

Te

Do teu torpor!

Liberta-te do suor

Que em vão te percorre!

O amor altera o sabor

Do que a tua alma devora

E a voz que por dentro e por fora

Te murmura:

Não fugirás à tua sorte

Seja na vida seja na morte!

Ignora-a

E recomeça agora!

XV

Ah, a lembrança é um excelente instrumento de sobrevivência…

 

 

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