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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

07
Out18

JEFFERSON DIAS - O TEMPLO DE MOROS

Vamos, meu amor,

Mas não podemos ir;

E se abríssemos o registro do gás

E se fizéssemos parecer acidente

E se não pagássemos a conta

De luz?

 

Vamos, meu amor

Pois já não há –

            Meu amor, pôde haver coisa tal

            Qual o amor?

 

O amor dos bons-dias

Tentativa desesperada

É o

Amor dos amoques que correm e sangram o amor

Dos que se

                        Autoimolam?

 

Meu amor, nunca houve o amor.

 

Vamos

            Para onde?

Nós nunca saberemos

 

Que animal era aquele

Que viveu há 70 milhões de anos

Uma perna um braço um pedaço

De crânio: o próprio tempo  

As agulhas da fome

            Agora transponíveis

                        Ameaçadoramente paradas

Como se a vida nunca as tivesse tingido

                        Ante as quais se reconhece

                        Não sem comedido pasmo

                                               Que não se evita o aniquilamento

O fóssil traficado

A múmia que nos transia

A entomologia que agora arde como um poema nunca lido

            Dentre todas as línguas indígenas que também ardem

Como se nunca tivessem sido faladas –

A morte é também o que há antes, meu amor?

Que animal era aquele

Titã que agora se confunde com a noite maior que a noite

Lavado em fogo – porque não há memória –

Como um sarcófago nunca aberto

            Que nunca será aberto – será isto o infinito?

Será precisamente este o significado da palavra

Nunca?

Esta perambeira no coração incinerado do povo

Esta calcinação das nossas tripas

Este sarcófago fulgurante que nos despeja

            Da história

                        Nave que nos leva ao amanhã que nunca será nada

                                   Senão o adiamento

Este pranto de cinzas como um fantasma encantoado?

 

Meu amor –

            Já houve o

                        Antes?

Haverá o museu da próxima extinção em massa?

Meu amor, hoje

Com arma de alto calibre de uso restrito

Explodiram os miolos

Da primeira mãe da América

Hoje – para sempre hoje – a primeira mãe da América foi

Queimada

Tão viva

Foi carregada

Tão viva

Agrilhoada

Detida

Tão negra –

Não seria aquele animal

                        A nossa mãe?

Todos os dias

Tão morta.

 

Não será a morte, meu amor?

Uma morte

Tão viva

Uma morte não pedra

Uma morte choque elétrico na mulher azul

Uma morte rato no cu;

 

Meu amor,

A verdade é que houve a facada

Tão pele

Contra o espelho obscuro

A facada tão morte

Sob a couraça da carniça

E não há a couraça há a facada fictícia tão funda que não sangra

Tão leve que lesiona o fundo exangue da

Caveira que ecoa como um corvo: só não há a dívida só não há a

Dívida.

 

Meu amor, não houve a facada.

 

Meu amor, há a morte

Com a morte em cima

E outra morte –

            Desde à viela

Até à estrela.

 

Não seria aquele animal

            A casa em chamas o oco no mapa

                        No peito aberto maior que o céu oco maior que a faca?

E se fizéssemos parecer acidente?

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