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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

14
Nov18

JOÃO MANUEL RIBEIRO - O CICLO DAS MULHERES

 

1.

Algumas mulheres lavam os olhos

como quem cozinha uma receita:

juntam ao silêncio a mágoa,

misturam certos milagres quotidianos,

amassam tudo com palavrões

levam ao forno do vale de lágrimas

na temperatura da paciência

e assim se dão a comer, ensandecidas.

 

Algumas morrem cegas. Outras,

de olhos enlodados, saem de casa.

 

2.

Os pombos depenicam a saudade

do coração triste das mulheres

que ao domingo divagam pela praça

como profetas da desgraçada: alguns morrem

envenenados, outros, bravios, instauram

um curto-circuito nos sistemas elétricos 

que governam a luminosidade do poema.

 

3.

Ela não sabia se era o cheiro,

se o exíguo uso de roupa interior

ou qualquer outro desígnio:

os homens, a solidão tresmalhada.

 

4.

A mulher,

vítima de violência doméstica,

inspirado pela figura bíblica de Dalila,

decidiu cortar os cabelos do marido...

Mas nada de milagroso aconteceu,

além de novo enxerto de porrada...

5

A noite abriga-se de tal modo

no corpo de algumas mulheres

que só os pirilampos dos olhos

indiciam que a vida ainda subsiste.

 

6.

A mulher chique perguntou

ao empregado de mesa

o que recomendava.

Sem tirar os olhos do bloco de pedidos,

o rapaz respondeu:

- Línguas de fogo em cama de versos.

A mulher mandou chamar gerente
que chegou, extasiado, falando todas as línguas...

Sobretudo a língua oblíqua e muda do amor.

 

7.

Certa mulher experimentada acreditava já

ter visto de tudo. Nunca

suspeitara ter um dia

de olhar para dentro

de si mesma...

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