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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

03
Out18

JORGE VELHOTE - OS ACTORES

 

Os actores caminham. Deambulam entre livros

como deuses mortos. Descalços como pedintes. Beijam celestes

os ácidos da ironia minados com a voz em lágrimas gotejantes.

Arrepiam se os olhamos de perto como quem lambe na sua face

os lábios que a noite tece.

 

Deslocam-se na brevidade de um olhar entre veredas.

Como se possível fosse na dobra de uma esquina entregar uma carta.

Um sorriso dúbio. Ou escutar na multidão um segredo.

 

Gritam e o que escutamos é um tímido alento

que agarramos entre os dedos até que as unhas se cravem na pele

e vemos como são simples as palavras ou o olhar mais sombrio

que doendo nos diz que estamos sós e como somos inumeráveis.

 

Inventam e dançam com os nossos braços para que possamos voar

e mesmo cantar como aves. E voando deixam que pousemos nos galhos

da melancolia o abismo mais alto do nosso contentamento. Ascendem

ao volátil coração alheio semeando os sulcos insones da água fresca

onde transborda a voz iminente da tempestade dos dias

que rasga a cegueira da nossa inacabável vertigem.

 

É frágil a nossa sede se no palco o actor descobre um oásis. Uma luz coada

em pedaços. A morada de um verso ou a alva luz de uma parede. O actor

atinge-nos com o dardo certeiro do milagre que tacteamos

no mais débil dos caminhos. O coral rútilo que elegemos

transbordando cântaros de ecos e maresias.

 

O actor olha-nos múltiplo e sereno. Observa como somos repartidos

por tantos corpos ausentes. Como repetimos a acelerada pulsação

das estrelas. Das areias que cintilam nas entranhas dos sapatos.

Entram pelo nosso olhar adentro os mortos imunes e esquivos

como peixes luminescentes. E resvalam com as suas enormes

pegadas na nossa memória ou medo.

 

O actor enreda a claridade de brumas subtis. Com golpes

de silêncio aliena o que na leveza permanece. O que inebriante fustiga e na dor

se desvenda fugazmente. Com as nossas mãos o actor sobe uma escada.

Observa longamente a árvore que ali se ergue. Toca-lhe. Até que a árvore

se demita de ser árvore ou pássaro. Toca-lhe para que regresse.

E como pássaro pouse no nosso ombro e ali permaneça

e cante como a árvore que o vento serenamente adeja.

 

Soterrados de segredos olhamos o actor. Com as mãos

nos seus olhos escutamos o tumulto dos gritos. A torrente de lava

e lama que rasura a tempestade. A chama extrema com que cerra os dentes

e nos morde os lábios. É intensa a sua sede e nos nossos dedos

jorra água sal e sangue. E cinza e poeira e caruma

como rascunho febrilmente incendiado.

 

Em louvor dos mortos ergue a voz para cantar.

A textura do fumo dissipa para vermos como as palavras são vidro

transparente. Como na sua ausência um rosto se perde no tenso negrume

da escuridão. Como é rasa a luz que fende entre punhais

o hálito do vazio. Como é pauta e acorde no seu rosto uma palavra

breve que seja. Ou tremule em labareda talhando a noite com o pólen da alegria.

 

 

Arde. Arde com os pés na cabeça o actor. Na soleira de uma porta.

No degrau gasto de uma escada. No peitoril cambo

de uma janela. Onde os rastos dos animais se ocultam. Onde

os vestígios saciaram de odores a terra. Nos livros

que se perdem das mãos e que os nossos passos ocultam.

Escuta como murmura a água no seu corpo. Ou cintila

no nosso peito um sino. No seu silêncio se despe

o diáfano filtro da escassez. Os insectos. As fontes. O delírio

do mar. Os barcos que rumam na noite e desejamos

um dia ver regressar cerrando os olhos como adivinhos.

Tacteando as palavras secretas do desejo. A maciez

penetrável da pele até que arpeje no tempo

aquela gota de água. Ou um aroma ignorado.

Uma aliança de musgo nómada como outrora lanças

e bandeiras nos defendiam das ameaças do demónio.

 

Só entre muitos como um lençol ao vento

ou pedra livre ou líquen numa estaca exalando

as feridas mais urgentes como diadema ou seiva

o actor alonga a penumbra. Obscurece as palavras.

Desfolha os cabelos e com a língua em fogo

apodera-se dos nossos músculos. Do vazio

que acalentamos na cicatriz dos espelhos.

 

Toca-nos o refúgio mais secreto do coração.

Espalha a hostilidade dos presságios na doçura

de uns figos ou punhado de tâmaras o bastante para que o chão

se erga até aos nossos passos. Até que se retalhe

nos versos uma mordaça e um incêndio deflagre

atónito nos nossos lábios e regresse. Sempre

regresse para nos morder as moradas ou as ruínas.

Suspender a luz puída. Os aromas pútridos. Os restos

das flores secas. Um ínfimo de um arcano

ou o apelo do mar. A lassidão com que infligimos

a tristeza e diluímos as sombras pelas cinzas.

 

Um actor é um ogre violento. Sádico.

Despojando o ar que respiramos

abandonados. Quase benignos acaso

não soprasse nos nossos lábios sangue e lenha.

Ou um vintém de palavras cercadas de relâmpagos.

Um actor cercado de pernas na cabeça dispara

na nossa cabeça a inquietude. Um fluído venenoso.

Uma pedra incandescente. Um sepulcro. A linhagem

incorruptível das nuvens ou das aves. A obscuridade

dos retratos que se obstinam a olhar-nos

de frente mesmo quando a chuva nos bate

no rosto a sua música selada.

 

Rendidos somos mesmo que mortos ou abatidos.

Alguém descobre esse lugar onde da opressão nos libertamos

enquanto com os pés na cabeça o actor calça as botas

encardidas de pústulas e lodo. Rasga a nossa melhor camisa

enforca-se com a nossa gravata. Rende-se na nossa traição

ou denúncia. Ocupa o lugar perene e precioso dos amantes

que cobiçam a nossa memória noite após noite. Corpo a corpo.

Beijo a beijo. Enquanto nas tavernas copo a copo demoramos os segredos

ou o murmúrio das lágrimas com a paciência selvagem dos peregrinos.

 

 

Com os pés na cabeça caminham contra a torrente do medo.

Contra a escassez de um grito. Uníssono.

Por um sorriso que interrompa a noite do sofrimento. Pelo rigor

de uma palavra que encharque os nossos lábios e dedos.

Que seja fruto. Uma côdea ou o portão da clemência.

O derrame perfumado das pétalas frescas nos caminhos.

Caminham inóspitos para que nos afoitemos no deserto

e clamando capazes fossemos de florir ou uma palavra

dizer mesmo que ávida de ar ou água ou na terra

fazer escoar como semente inquieta da desordem.

 

Caminham com os pés na nossa boca desvelando

o alvoroço com que aspiramos a claridade

de um outro corpo insaciado. E dançam

nas nossas pálpebras o sortilégio evanescente

da pele com que completamos a nossa pele

e os aromas que delindo o coração afaga

repleto como um hóspede desejado.

Os actores caminham esquecidos e frementes

por vezes perenes ou suplicantes.

 

Caminham desmedidos em suas folhas de laque

e ardósia. Na luz de seus rendidos sequiosos lumes.

Resvalam devastadores nas perguntas que interrogam

como gangrena os nossos passos. Caminham como animais

com os pés na cabeça algures entre o que sem descanso

declina e o que erguendo se despenha em agonia

para que no coração o sangue borde o nome iminente

de um sítio por caminhar.

 

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