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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

05
Jun19

LÍDIA JORGE - O CÍRCULO DE GIZ

 

 

 

Vem o vento da tarde e faz embalar o berço.

O choro da criança desvia as árvores para o lado poente.

As folhas acamam-se ao longo da estrada e há muito

que as borboletas partiram para o interior dos casulos.

 

O fio provém de longe e  veste as crateras de seda.

As mulheres roubam-na,  cobrem-se com ela amaciando

o corpo e preparando uma espada. Atingem com a ponta fina

o coração dos homens que regressam embriagados a casa

e as matam com pesadas caçadeiras de ferir búfalos.

 

O vento da tarde leva os homens para Oriente e daí

transporta-os para o interior de penitenciárias  com pátios

onde praticam  dez metros de footing ou então futebol de salão.

A televisão filma mas não faz sair as imagens do espaço  do curral.

Trá-las antes de todo o mundo e deposita-as nas paredes da cela.

 

É assim, o vento da tarde une as imagens da Terra inteira.

Faz ondular as árvores  e nascer crianças que nada sabem das suas mães mortas.

E contudo existe um círculo de giz que lhes imprime a lembrança nos planetas

obscuros do cérebro. Ficou lá gravada a cinzel a passagem da primeira rajada

de vento que levou a folhagem para as estradas, e elas pensam, sem que ninguém

lhes tenha ensinado,  desde o berço, como seria bom caçar borboletas

com a ponta da faca, arrancar-lhes as asas, as patas, e reduzi-las

a lagartas cinzentas,  só para mostrarem  como podem  rasgar    

objectos de seda pelas suas próprias mãos.

 

O vento da tarde solta o seu silvo agudo  e as árvores curvam-se

o berço oscila, as folhas voam, e ninguém, nem o ciclista, nem a rapariga

da ambulância lhe desobedecem. A mãe desce as escadas e embala

o filho, enquanto o vento sopra, e ela julga que o seu menino ficará inocente

para sempre, porque não se lembra que transporta, por baixo da saia roçagante

uma espada atada à cintura. Ela retira o seio do ninho de rendas  

e dá de mamar ao menino. Ele sorve o leite  em pequenos goles

com os olhos postos  no seu colo de âmbar. Por um instante, a natureza

suspendeu o círculo. Uma mulher muito antiga abriu a porta

de casa e disse – Aleluia.

 

 

 

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