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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

08
Jun18

LUIZA NILO NUNES - ECTOPLASMA

Depois, com a cegueira dos pombos celestiais, perdi-te para sempre

Passei a existir do outro lado tenebroso da casa

lá onde os muros humedecem à sombra das roseiras

e as crianças são tocadas pelo hálito dos mortos

 

Passei a habitar secretamente o cerco inválido do medo

O minuto em que os pastores emudecem contra o peso

dos relâmpagos

A noite

em que se abrem os celeiros

e os bovinos chiam dores sob o brilho dos cutelos

Passei então a existir na tua boca como um alvíssimo

osso cósmico

a estreitar-me contra a relva dos pátios

a oferecer-me à gravidade das rosas

e à azulada vocação das varejas

 

Eu crisálida sem mácula, corpo leve de defunto em explosão.

 

Eu que nadava sobre os túneis e os prostíbulos

e os escombros de Berlim

Eu enterrado nos retratos belicosos, entre

flores virulentas, acenando-te

Eu perdido nos labirintos das cidades onde a luz é refratária

e os anjos mijam nos vapores da manhã

Passei então a arrepiar a tua nuca com o soluço

das torneiras sanguíneas 

a estilhaçar-te os candelabros

a escutar a tua voz arder de febre sob as lâmpadas

dos cegos

A sorver-te, língua a língua, o lixo negro dos pulmões

para que limpa contemplasses seriamente a grande árvore

do milagre em que balançam os meus

pés

 

Eu com os olhos perfurados nas clausuras invisíveis

eu como um feto em desistência nos berços

eu nesta cama batizada de coágulos onde te deitas

a sangrar sobre uma estrela

placentária

e vês um lírio apodrecido nos lençóis

ou uma aragem a acender-se sobre a pele

ou a venérea e luminosa formação

de um ectoplasma 

 

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