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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

04
Ago18

MÁRIO MÁXIMO - POEMA PARA O SONHO DOS DIAS PLENOS

Não se levantam brumas nem sóis

O mundo deixou de se enquadrar por latitudes

e longitudes

A altura das estrelas aceitou o olhar dos homens

mas ainda rejeita a compreensão das suas ciências

 

Explicam-se nos livros antigos as verdades de amanhã

Aquelas que também são procuradas nos versos

que edificam poemas que hão de ficar esquecidos

pelos manuais da inutilidade

mas que serão sempre reencontrados

nas arcas onde se confinam os segredos

que um dia voltarão a levantar as sociedades e os homens

 

Há sempre uma nova tradução para a palavra esperança

E um novo filósofo para cada visão

Mas as nascentes de onde as visões emergem

têm a autoria de profetas

não de filósofos

Hoje dizer profeta é dizer uma palavra de ontem

Mas serão essas as palavras

que um dia voltarão a levantar as sociedades e os homens

Corpos de mulheres constroem instalações de artistas

Lançam-se pelos declives dos versos

Esses corpos femininos que anunciam

as versões dos mundos da diferença

Amanhã será outro tempo

Dizem esses artistas sem saber o que dizem

E nós contemplamos

Contemplamos e nada dizemos

ou contestamos

Compreender o corpo feminino

continuará a ser o grande desafio 

 

Percorremos o mundo global

como se percorrêssemos uma galeria de arte moderna

As novas teorias são reflexos dos mundos práticos

Enquanto noutros tempos

eram os mundos práticos que refletiam as novas teorias

 

Saudade

Não

A saudade deixou de ser um sentimento

a levar em conta

O saudosismo é um estado de alma

onde nem sequer na Era de Pangeia

encontraríamos vestígios

Saudade não tem explicação no dicionário

Os dicionários da modernidade

foram impressos sem essa palavra

 

Mas tu adormeces

e no esplendor do teu corpo de mulher

vejo a saudade de amanhã

Sim

terei amanhã saudade da tua boca

e do aroma suave de todo o teu corpo

Uma vez desvendado o códex

da paixão que nos ilumina

nada mais terá interesse ou valimento

e repudiarei todas as regras de qualquer sociedade

que me queiram impor

 

Agora que acordas e me diriges o olhar da surpresa

Todas as manhãs o teu olhar é o olhar da surpresa

Sei que poucas verdades haverá

como poder amar o teu corpo e ser por ele desejado

Poucas verdades haverá

como a verdade de te saber

nessa transcendente dimensão onde nos encontramos

para desespero de todos os que nos querem destruir

Estamos e vivemos onde nunca eles sonharão

 

Agora que todas as ordens vêm de fora

Que os discursos dos homens

deixaram de ser redigidos

com o autor virado para o templo do coração

Agora adormecemos sem canções de embalo

O mundo está à beira de se tornar

um mero ato gestionário

E pior do que essa condição

é a existencialidade aceitar

que se intrometam os valores sem valor

 

Na esfera dos caminhos utópicos

desvelam-se aquelas que hoje são consideradas

as pequenas verdades

Mas errado

errado porque essas é que são as grandes verdades

Guardemos as pequenas verdades

no lugar sagrado da poesia

para que um dia voltem a ser reveladas

e as mulheres e os homens do mundo

retornem ao romance de viver

Não se observam

daqui onde me encontro refugiado

sinais de novas terras ou continentes

Mas também não se levantam brisas

que me façam chegar o aroma

de ilhas onde as árvores de fruto

sejam o alimento das utopias a criar

 

Mulher extraordinária aguardo a tua chegada

Entretanto segue o tempo

contado por relógios rodando ponteiros

ao serviço de outras convenções

E isso faz sentido e constitui desafio

Beijar-te será uma esperança de poema

e uma cor a mais inventada

O teu corpo é o teu espírito de mulher extraordinária

porque o contém

Mas o teu espírito nunca será o teu corpo

Mulher assim extraordinária

não te observo ainda

daqui onde me encontro refugiado

 

Quem és

irmão de boa fraternidade

Pergunto onde te encontras

Chamo por ti Grito o teu nome

sem saber quem és

Aguardo por esse dia em que sinta

o toque da tua mão

no meu braço mais desprotegido

Não quero continuar na solidão

dos que conhecem o mundo mas ignoram a vida

 

Serei humilde na espera

E enquanto isso

enquanto espero sem anunciar compromissos

vou urdindo

esta sucessão de versos

que hão de ser versos eternos

porque tal é a minha vontade e inspiração

Serei humilde na espera

enquanto vou cinzelando estátuas de sílabas

e palavras estátuas de versos

na edificação deste poema para o sonho dos dias plenos