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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

04
Jul18

ROSA ALICE BRANCO - ANTES DA NOITE NOS OLHOS DO PEIXE

Ali no molhe só o mar vem dar à mesa.

Talvez por isso as minhas raízes sejam planos

de fuga esquivos a promessas que toquem

o teu corpo. Atrás de nós as árvores seculares

são caminhos como rios que hão-de chegar

ao reverso do mar mas estendes a noite no dia,

o vinho nos copos e um sorriso no olho do peixe que

estaria fresco umas horas antes do anzol. O peixe

aberto no coração do mar é só mais uma dor entre nós

com batatas e salada. O vermelho do tomate

sangra-me o prato. Se fosse um crime seria

mais fácil pôr as armas na mesa e depois esquecer.

Mas sofro o desencanto de estarmos sentados

e a cadeira já não levitar como quando o teu corpo

sabia a camarinhas no orvalho. Entravas pelos poros

da minha pele na ignorância dos nomes na garganta.

Os olhos eram vorazes e as mãos — ou melhor

os dedos — eram as únicas raízes de que precisamos

na vida. O peixe olha a noite antes da noite,

a palidez das nossas vidas como um rio estagnado

tão perto do mar. Saberá que o anzol ainda não veio

colher-nos? O mar inverso dá à mesa. Com o azeite

desenhas a manhã a escorrer no prato. No meu corpo

cresce uma raíz que toca o teu, o mar resvala

para o vale e abre clareiras onde quer que a tua boca

me olhe em descaminho sem toalha, os lábios

bordados de ignorância feliz como o mar, o mar

que entra pelo mar e desagua num amor imprevisível.

Devo desculpas pelos preliminares desastrosos

do poema, agora que transbordo de mais um

de tantos enganos, tantos rios a caminho de nós.

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