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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

24
Jun18

RUI MIGUEL FRAGAS - EXÍLIOS

O sulmonense Ovídio, desterrado

Luís de Camões

 

Antes do exílio já estavas exilado, ovídio. Porque

escreves então tantas cartas de tomis e

tanto te lamentas. Sempre foi a poesia a pressagiar o desterro

 

e há muito que os teus versos te tinham denunciado.

Lá longe, nas raias do império, onde augusto

mandou depor os teus haveres

 

era onde sem saberes já tinhas morada, na terra

bárbara onde verso algum suaviza o inverno da

alma. Quando o tempo fender a tua sombra

 

saberás que outros caminham como tu nas margens

de tantos danúbios. A vida é um barco encalhado

a beber da nossa água

 

e a mágoa um poema que nos sulca até à boca do

naufrágio. Tudo está em mutação, mesmo frio e

absorto o corpo é sempre chaga viva.

 

Depois de cada noite vem mais um dia aziago, outra

noite o mesmo cárcere, outra nova velha ferida.

Ninguém se lembra já dos teus versos

 

nem tibério nem os teus netos. Escreve no entanto

para que não esqueças: a poesia é rainha deposta

e tu, ovídio, seu servo.