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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

25
Jun18

A.M. PIRES CABRAL - PARA QUE FUI AGORA MEXER NISSO

Para que fui agora mexer nisso —

nessas coisas que estavam sossegadas

em caixas de arquivo morto,

aguardando o silêncio prometido,

e que, embora às vezes peçam

que as deixe sair um pouco (mas não deixo)

porque escuridão e bafio sempre também cansam,

é na caixa que se sentem bem;

 

essas coisas que estavam dobradas sobre si

como fetos em ventre de mãe,

e se me desenrolaram como um novelo de fio

que por descuido nosso cai ao chão

e depois não temos maneira de voltar a enrolar —

para que fui agora mexer nisso?

 

‘Isso’ eram coisas do passado, que no passado

deviam permanecer, esfarelando-se

um pouco mais a cada ano que passasse

até não serem mais do que uma suspeita de pó

que se podia confundir com os detritos

que o caruncho deixa ao roer madeira velha.

 

Pois deu-me hoje para mexer nisso — e pronto,

temos choradeira, confirmando a tese

de que o poeta é um chorador.

 

 

 

 

 

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