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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

14
Dez18

ALEXANDRE SARRAZOLA - PRIMEROSE MANSIONS

 

 

 

a base da palma contra a empena caiada e ias cuspindo tudo depois de teres vomitado

os botins que te vendera o sapateiro de Córdova, quando ainda te não cortavas às escuras

a amparar a contínua ruminação do estômago ferido noutras paragens do tormento

ou no lugar da canção nona “onde nem ave voa, ou fera dorme, nem rio calmo corre,

ou ferve fonte, nem verde ramo faz doce ruído”, a morderes a crosta do lábio inferior

 

no recesso do teu casulo de olvido já só concunhadas italianas, flandrinas amas, putas

magrebinas de meias de lã arrepanhadas até ao pregueio das cochas para te servirem

salmonejo para as ressacas na Semana Santa, depois do Ramadão ou no Advento

pouco lhes importava que tivesses pé-chato e bexigas desde que te deitasses de borco

e te pudessem ter ali à beira entre cada mamada corcovadas sobre o berço rezando

 

às ordens do Profeta e de Nosso Senhor, curando frieiras e casuais azares de empola

tudo antes dos dias em que deste a lavrar estrofes de cinco para te não ferires mais

no pesadelo de sexangulados catres ou heptagonais derivas na redoma sudatória da hora

primeira, delirante e escutando matinas, cego e já amo e cativo de um falaz demiurgo

que te jugulava a glote, escanhoava a nuca e meigo te amparava até às portas do Inferno

 

 

 

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