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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

22
Nov18

ANA MORAVI E MARCELO ARIEL - PRIMEIRA CLASSE - VAGAS

 

 

 

primeira classe

vagas

 

 

era uma longa caminhada até a borda

a vontade de chance, os abismos

as bolhas e cortes nos pés ardiam

como galhos afundando

ela sabia que nunca iriam voltar

no medo do pensamento do oceano

o blood money no black market

a água do olhar da árvore

só tinha a garantia da partida

 

os muros se estendiam num traço

infinitesimal

entre desertos e os avessos de sal

a respiração de deuses extintos

o quê senão um crescente desespero

a alga cobrindo o automóvel

seria  razão pra abandonar o passado

 

a travessia vagava a promessa

a ressurreição da imaginação

para quem saisse vivo dela

criando uma porta aberta

de outro sabor além da poeira

dentro do orvalho

outros cheiros que não o gás

das imagens

outros sons não mais sirenes, bombas e gritos

como peixes

olhava perplexa para aqueles corpos

soterrados no ar

lembrando outros mortos pelo caminho

duplicado pela névoa

dissimulou a fé pela vida em jogo

pela feroz suavidade de raios

queimando segredos na fronteira

redesenhada pelo sangue

dividiu a fome com a cigana de kosovo

estelar, cosmogônica

e sentiu a mesma sede dos lábios somalis

oceânicos

a esperança era um bote sem salva vidas

de sal

consumindo o mesmo combustível inflamável

de nuvem

de ganância, fanatismo e xenofobia

estridentes

quando o malinês desmaiou de fome

como o silencio movido pelo vento

o jogaram para fora do barco

como este peixe enorme

para fora de si e do mundo

se debatendo

ela se beliscou para não dormir

desesperadamente

lembrou do traficante de pessoas

evocando a raiva da vaga

que cuspiu no último a subir

cada vez mais alta

como uma especie de despedida

chamando

a lua que alterava as marés

 a amizade

não minguava os perigos que via

inominável

uma tormenta de ondas fortes

da flor

 

verteu o bote lentamente

indestrutível

a criança sozinha no convés

de cristal

não sabia onde se segurar

solar

e junto com outras centenas

congelado

se debateu até o limite

 

ninguém ouviu a canção de ninar

dentro de uma baleia

do menino deitado na areia

invisivel como sonhos

o mar agora estava calmo

após o despertar

não é doce morrer no mar

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