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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

29
Mai19

ANDREIA C. FARIA - (SEM TÍTULO)

*

O azul dos mapas, o azul-ecrã dos mares. O pixel donde extraio
            ganga abrigo ventre
            o grão da época
            a orgânica e a métrica
            os filtros e os cristais
a vintage-lividez dos livros,
fantasmas à porta da alegria comum
– e se me deixam deito-me a ler
em luxúria,
uma orquídea de alimento tóxico
com a pele guardada ao vento
em Hiroshima.

Humilha mais a natureza do que a química
quando se é jovem e depois não.
A coisa experimental que tomam no regresso
os astronautas simulando
a sinfónica abstração do sono,
um palco de vozes pousadas
no escuro, mordeduras da lua e do sol,
e na bula que me rege:
É melhor que eu durma.
Quando não durmo o corpo é um lago
e algo no fundo começa a feder.

Do lixo nasce lixo contornado pelos cães.
Dos sonhos nasce carne
da minha carne, um punhado
descerrado e aleitado longe, largando
pai e mãe para apegar-se pelo sonho
à minha carne, e um sabor a pó
de que faço a memória de ossos
dos meus ossos, a mecânica
de uma intimidade.

Áspero e solar fica o coração
implícito
na recurva ausência
da costela, nessa acústica.

De mora, o seu lugar
na carne, um touro a embrenhar-se mais
no vagaroso azul, a acender
cá dentro
ou um artrópode, táctil
enfeitiçando o seu excremento
descascando as dores de crescimento
deixando côdeas
               códigos
               superfícies, cores extremas
constelar a boca
os olhos
a imagem pelos dedos.





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