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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

10
Fev19

ANTÓNIO CABRITA - XXIII   (vox balanae, de George Crumb)

 

 

XXIII                   (vox balanae, de George Crumb)

 

                                  para a Inês Fonseca Santos

 

Maravilha-nos a gravura de uma baleia:

que haja um cego sentado em cada olho.

No lado esquerdo tange cordas Homero,

no lado direito, roufenho

e largando postas de pescada, o vendedor de cautelas.

 

Tumultuada, a baleia avança ou desprende-se de um céu

de corda e chapa enferrujada,

sulcando, num contraste que o poente reverbera,

um desconjuntado mar de mel.


A baleia, que para alguns é um sistro de carne nómada,

que sagra ainda as mais evanescentes estrelas

e a distância que une o nosso sangue

à carótida do Deus Ausente      

é para outros um longo estame

que fareja o rasto do último anjo

- da beleza terrível que faz sucumbir.   

 

E o canto, o canto de Homero ou o do cetáceo (o pregão

incessante do cauteleiro não deixa precisar),

narra:

há um vulcão no homem que o liga ao vulcão da baleia,

que intenta obstinada

localizar o vulcão do anjo

- convém descortinar o que a todos afecta e enlouquece,

abafando o cristal do grito 

e acendendo no homem um escolho vivo,

um arquipélago

de insusceptíveis brasas entre solidões que nunca,

nunca, mutuamente se inflamaram.     

 

Rés da tarde, o mar adopta uns tons de cretone,

enquanto um violino ondula líquido,

preparando o pé ante pé do piano forte

- quem geme na antecedência do sorriso?

 

Na gávea um marinheiro desata a assobiar

quando vê um albatroz,

a sua bolsa abarrotada de cerejas.

Após o que, mentalmente, esboça uma carta para a mulher,

mesmo que, depois de ter matado o desejo em Sumatra, 

esta lhe pareça mais insípida que o coral encanecido.                      

 

Quem salva o homem do desvairado alongamento das paixões

que afinal lhe dão um nome,

uma memória falível,

- não sendo só banimento o que propende ao erro, à gafe?

 

Mas como o noviço que quer ver o seu Senhor

e choca, uma e outra vez

com o prior, uma e outra, assim eu suplico

que me deem acesso na hora,

sem mais intermediários forçados ao Presente...» segreda-me

a baleia que erra sem descanso nem álibi,

pelos cinco oceanos, à cata do anjo. 


O canto da baleia (calou-se o cauteleiro – dorme?)

escande o hiato

que há na morte, unge

com gotas de limão um espesso nevoeiro.

E tem uma ténue semelhança com o sopro esgarçado da criança

a quem o ar penetrou pela primeira vez os pulmões

e cujo som se distende num misto de flauta e ocarina. 

Mais estilhaçado o crocitar das gaivotas.


(Interrompo o poema para aprender a acender o carvão

com um fósforo e um saco de plástico,

enrodilhado no interior da pirâmide de carbono.            

O plástico é um diafragma fragilíssimo

que em se inflamando se cola ao carvão,

fazendo-o respirar a tempestade que lhe aflorou aos átomos 

e então entalha-se o fogo,

mais vivo que o adeus vivo, no arrepio do arco novo.

Uma técnica minimal que hoje um desleixado Jonas

podia desenvolver sem esforço no bojo do Leviatã,

reduto que, sem surpresas,

amontoará sacos de plástico, relógios

e onde o tempo perdeu o seu alfinete-de-ama

e a carbonizada proa da escuna do Comandante Capilé,

o último nefelibata a avistar a baleia branca).


Vista a baleia mostra-se fastidiosa a primavera

ou tagarela.

Acutilada pelas constelações que a noite lhe reflecte no dorso 

esplende ouro e anil.          

Nenhuma baleia é o quarto escuro ou se imagina arca

prestes a recolher

os poucos músculos que sobram ao dilúvio.

 

Delicadeza e gravidade

norteiam a criatura

que nunca padeceu de saudades 

de ser árvore e em quem fluem séculos e frondes

de um estilo muito diferente.

 

Falemos da baleia e do mar como do cavalo e da ferradura,

diz-se no conto de Lezama que não fala disso.

 

É aqui que quero chegar, a um limpa-pára-brisas

que no âmago mais enlameado

das almas não cesse de varrer a superfície

do discernimento, na sede

de aclarar o que se vê,

restituindo à transparência um fundamento

que prescinda de duplos

e da ilusão de se dar numa só veia a volta ao mundo

 

- operação “tão delirante” como procurar no sonho

de alguns galhos o chilreio

de uma baleia,

sintonizada a frequência modelada.

 

De violino, flauta e piano

se fez a circunstância de quem arde na desventurosa

espera do semáforo,

memória que fustiga por já ter sido feliz.

Os anjos caíram, Homero morre de gangrena

nos mealheiros de Hollywood,

o cego da lotaria é o único que triunfa,

pregado como um insecto no verso de um número,

num bilhete que mudou a alguém

o redemoinho secreto e a marca do batom.


O destino também se martela como o uísque.

No contrário acreditou Jonas,

a quem foi dito um dia terás direito à palavra,

mas que quando fez a fogueira

para enxugar as húmidas entranhas do Leviatã

percebeu que a palavra lhe era dispensável,

embora não soubesse o que fazer

do enorme cadáver do silêncio.

 

E se a baleia um dia deixa de desamarrar o mar,

em que poço de crude cairemos,

em que coalho o nada de nós transluzirá? 

 

do livro inédito « A Flor de Edo »

 

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