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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

01
Set19

EDUARDA CHIOTE - O PROFETIZADOR DO POEMA

 

 

Ouvi o profeta rosnar

ao oferecerem-lhe um livro

cuja capa ilustrava um Anjo caminhando sob as ondas,

sob o mar : - Oxalá se afogue !

A estupefacção que senti perante este raivoso comentário

acontece-me sempre que presto atenção ao facto

de que "pode matar-se um gato pensando que

se pode matar

o azar"

pois somos

não apenas, da memória, o esquecimento

mas o que distorção da percepção

desta

nos permite

a nossa história, cegueira, in/visualidade - olhar.

Penso, mas penso isso hoje com a idade e a adoecida

tristeza de hoje, que. Ao exprimir-se

deste modo,

o profetizador

do poema

quisesse devolver

à imoderada anarquia das águas, a leveza diluvia/na

das

pombas

condenadas sem pecado

a purificarem

até às zonas de aflição

os meus amigos tantos - agora/hoje praticamente

todos eles

muito para além do descanso.

Na verdade,

o Anjo

era apenas a configuração do anonimato do caos antes

da treva: antes - muito, muito antes.

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