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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

19
Dez18

FERNANDO DE CASTRO BRANCO - APÓS AS OLIVEIRAS

Após as Oliveiras

 da Sé-Catedral de Bragança

 

 

Janeiro arrefece na luz

que cintila em breves espelhos

de gelo. Oliveiras suaves

anunciam um tempo mais largo

que este sol batendo nas lajes.

Os transeuntes que passem

de leve, que atravessem o Inverno

e deixem à luz a última palavra.

 

A entrada cresce desmesuradamente

sobre a nossa cabeça, criando a ilusão

de que a travessia é uma tarefa intangível

e ilimitada. Depois, a névoa

imprecisa da estrutura quebra-se

contra o vasto painel onde

imensas mãos prendem

e libertam num só gesto.

 

Varrido o ornamento, o arabesco,

sentimos o corpo à transparência,

despido como a morte. A impressão

de um livro de folhas em branco

onde se escrevesse, em simultâneo,

a Palavra e o Silêncio de Deus.

 

Talvez o Além comece na nave central,

horizonte desnudo, suspenso

em largos pilares; mecanismo

de betão abrindo garras ou definitivos dedos.

Do Alto, um arrepio dissemina-se na carne,

apesar do chão macio que nos afaga

o som dos passos. As tábuas rangem

surdamente, não sabemos bem

se ao peso do corpo ou da alma.

 

Sobre nós, a justaposição dos ângulos,

a esquadria exacta dos volumes e das formas,

o equilíbrio da estrutura e do gesto

que em eterno se suspende.

Tudo na verdade assente no lume

que da raiz cresce em regular e precisa

incandescência e, não sei porquê,

pressinto a chama do castiçal a arder

do fundo semi-eterno das oliveiras.

 

Descemos pelas escadas de nós mesmos

através do vasto anfiteatro, o sangue

remete-se para a sombra

lateral, deixando todo o espaço

do coração ao rumor das cúpulas.

Esta luz incerta que nos envolve

possui tons e timbres que ressoam na carne

e no olhar, e esperamos um clarão

qualquer que nos fale ou nos cale.

 

A profundidade dos painéis chegará

ao outro lado do muro, às oliveiras

que lá fora nos esperam, como sempre

por nós esperam as oliveiras. Ainda assim

vê-se à vista desarmada que esta Casa

é grande demais para um homem

e exígua para Deus, que se esvai

pela espessura compacta do betão

respirando o ar perfumado dos arbustos.

 

Transitaremos de novo desta sombra

povoada para a lâmina da luz; namorados

tocam-se e sorriem, e sobre o gelo os

pássaros descobrem sementes

como quem bate à porta do granito.

Como se comessem pedra

pela pedra, e nos dissessem que sobra

sempre tudo o que fica aquém da pedra.

 

Como explicar o segredo de uma Catedral?

Pela pedra ou pelo espaço, pela terra

ou pelo céu, pelo medo ou pela esperança,

pelo homem ou por Deus? Pressentimos

simplesmente o espaço cósmico

na miniatura de uma Casa circunscrita.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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