Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

10
Abr20

FERNANDO MACHADO SILVA - UMA DERIVA EM PRAGA

 

onde nós estávamos era
o paraíso        pouco mais havia
a desejar        a inclinação do mundo
a nosso favor        o labirinto
de uma cidade que trazia à memória
o prazer do corpo a deriva das palavras
a peregrinação dos sonhos

selaste a vida escondendo um poema
na minha boca
segui-te dias e noites
desfiando o sentido de uma aventura
não te carreguei aos ombros como me representaram
levando K        toda tu
me enchias os olhos entrelaçando
os dedos nos desta mão elementar

enquanto dormias o meu olhar dividiu-se
entre ti e as luzes das máquinas
animando a noite e os corpos que a atravessam
e inquiri se o ser que tudo permeia
também em mim se encontra
ou se tu como eu sob a tua língua
tens o verso que te ergue

se me retiras uma letra eu desfaleço
tal qual esse secreto sopro        o último
quando liberto                   te iguala a uma pedra
coberta por uma mortalha de musgo
não foi Isso que diferenciou cada coisa
mas a perversidade da separação
e disposição numa escadaria onde tu bela
criatura estás no topo e o resto da
matéria dispersa degrau por degrau
mesmo sabendo que tu e eu
somos como carvão e diamante        feitos
do mesmo carbono

em vão procurar a tua resposta
ou mergulhar nas águas frias da
esperança de que tudo um dia se difira
no vão outra escadaria se segue
onde outras como tu se entregam
a um baile de máscaras degrau a degrau
os rostos de pedra martirizadas por uma
inominável dor ao longo desta ponte
marcam-se na carne dos pedintes e dos seus
cães quase mortos pela fome e a gélida névoa
não posso mais olhar sem que uma parte
de mim parta e caia como um rochedo
numa falésia ao mar

agora que estás desperta e demandas
como rugas se afundaram nos meus olhos
eu peço
             ensina-me a arte da escrita
                              e ver para além dos artifícios
da criança ao velho falta a palavra
para a celebração da vida        apenas isso
eu guardo e protejo
quando não mais servir eu próprio
me reverto ao pó de que me fizeste



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Mais sobre mim