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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

15
Abr19

FLORIANO MARTINS - VISLUMBRES ESCALDANTES DA DISTÂNCIA ENTRE DOIS MUNDOS

 

 

 

Para Anna Apolinário

 

Meus olhos crepitam dentro da pintura de teu corpo avistado à distância.

Bosque vertiginoso aberto com sua plumagem plena de úmidos sinais vitais.

Bosque atapetado pela mão dedicada dos afagos.

Uma aranha visita o par de seios montanhosos da visitante noturna e deixa neles o mel de seu relicário amoroso.

A aranha dos dias dentro das noites.

A pele avultando as marcas por onde passa a aranha a caminho do biombo abissal de tuas pernas.

Aranha morando em teus cílios, nos casebres suntuosos de teu desejo, na voragem alucinada de teus pelinhos, por toda a relva ansiosa de teu corpo.

Aranha que bebe teus rios, tuas estrelas soluçantes, teus enredos de floresta acidentada.

Os olhos nus com que me vês disfarçado em tantas patas.

As luzes acesas em teus portos, em tua carne de ilha sequiosa pela visita da aranha dos tempos mais recônditos, dos barcos voadores, de minhas patas que rastejam tua pele em busca do mistério de tantos gêiseres.

Aranha que percorre as nuvens de teu gozo, as sombras de teus gemidos, o lacre do abismo com que me atiças um cesto de encarnações.

Não tens ideia de quantos somos esta noite, esta manhã colecionada por tuas noites, esses vapores sangrentos que me fazes beber, essas vozes que surgem do íntimo de teu sexo acobertado pela paixão cravejada de delícias, essas luzes que saltam da sombra frondosa de teu sexo, essa música que vou buscar nos bastidores de tua carne flamejante.

A aranha misteriosa que entra por teu ventre e descobre uma trilha apegada a ele por onde quem sabe um dia venha a sair o beijo negro que soluças como uma nova lei de teu bosque, o unguento de tua língua curando as minhas patas, o ouro úmido de teus lábios.

A tua boca guardando o meu segredo crescido unicamente para o reconhecimento de teu ser.

A tua saliva que bem sabe escorrer por minhas patas quando abocanhas docemente cada uma delas antes que te penetrem a escuridão do desejo.

A aranha que prenuncia a cascata inesgotável de tuas pérolas.

As patas dos dias dentro das noites.

A tua caverna cintilante onde decido minerar a suspeita de todos os mistérios do mundo.

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