Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

05
Ago19

JOÃO CAMILO - CAFÉ MOJO

 

 

 

Falar de cães ou da tarde de sol,

o tédio. Aonde ir morrer? Onde

esconder o cadáver da rapariga

de rosto impassível, tão branco

sempre, pureza, restos de pecados?

Confessa-te, ó mortal idílio da

juventude, ó paixão. Não. Sonhos

de glória? Aplausos. Parvos. Se.

 

Bullshit. You motherfucker. Petit

con. Fantasma. Tanta dedicação.

Leave me alone. E a ópera, as

árias. Insistentes. Tu lembras-te?

De mim? E daquele pedaço de

paisagem com arbustos, ao sol?

 

Travagem brusca. Sem emoção.

Uma adolescente curiosa. Blow

job? Às oito. Nas escadas. Disse

o Álvaro de Campos, imundo?

Olha, traz o manual de filosofia.

 

Paixões. Úteis. Cem dólares. Uma

noite de hotel. Tinhas música e

havia champanhe. E os caracóis?

Do púbis nojento.You bastards,

you are destroying the planet.

 

Lágrimas, crocodilos, a rata,

a serpente do paraíso. Corria

o rio nas minhas veias inchadas.

O herói do filme, o foragido do

crucifixo perseguia. Quem? E tu

silencioso. Morto. Desaparecido.

 

O destino, rodas de borracha

silenciosas nos corredores do

hospital. As minhas pobres

entranhas. Deixaste-me lá, foste

à tua vida. Tão longe já. Veloz.

 

E a bruma, o deserto, o quadro

do pintor desconhecido. Azul e

vermelho. Primária, tu, pecadora.

O único livro que eu podia ler. E

nem sequer o abri, tarde de mais.

E tu, tu queimaste-me no fogo

do meu delírio ardente. Eu deixei.

 

O amor, o amor? Basta! Sorri

para a máquina fotográfica, anjo.

Nesse colchão de penas tão

usado, encardido. Não, eu nunca

saí de onde estou. Tu não virás e

eu sempre ausente. Quero lá saber.

Fuck. Eu não, eu juro que não. Eu

em Espanha, contei-te, lembras-te?

 

Eu? Inalterável sempre por dentro.

Perseguir o destino, oh delírio. De

costas viradas para o Inverno. A

cor fulgurante da maçã verde, que

tentação. Morder nela. A minha

fome, a sede de infinito. Laranja

 caída da árvore. Podridão. Fedor.

Tentei, não consegui. Bolor. Não a

pude abrir, onde estava a chave?

Dá-me a tua mão fria. Os teus dedos

inesquecíveis. Intactos ainda, acredito.

 

Cidades tão desertas, túmulos

de paixões iinterrompidas todas

antes de terminar. Acabar comigo

e com os ideais de uma existência

luxuosa à beira-mar. Infanticídios.

Sangue inocente. Raça assasina, nós.

 

And you don't even remember what

happened. That affternoon at the pub.

Poor you. You, a tontinha das borbulhas.

A rebentar de sonhos e de ódios, sim, de

incompreensão. Eu nada sei, nada sabia.

Que podia dizer? E nada confessaremos.

 

Luzes nas esquinas, reflexos, nevoeiro,

calçadas húmidas. Gritos. Silêncio negro.

Poço sem fundo do aguilhão da dor.

Promessas. Masturba-te, sonha.

 

Incitam-te. Convidam-te. Abanava ao

vento o ardor do futuro. Naquela tarde.

Romaria de aldeia, elas e eles cantavam,

dançavam. Sombras, pesadelos. E tu

onde estavas, esquecida de mim, no

teu delírio sem fim? Tu sabes que sem

mim. Não, não consegues. Mas tenta.

 

A amante infiel em casa bordava.

Tonta. Clara linda como o sol. Ó

mãe, infância incompreendida.

Na sombra tu cantavas. Dócil. Sem

saberes a importância, sem prever

o meu futuro. Maldição. Um dia, porém.

Mas não, o milagre não acontecerá. Por

isso é melhor bastares-te a ti mesmo. E

não contes, não te confesses. A ninguém.

 

As cores, ar, sussurros, beira-mar.

A medida, o metro, a regra, a lei. O

rosto rubro do terror. Sujo. Devaneios.

 

Algazarra popular. Embarcaste,

depois arrependeste-te. Rio acima,

rio abaixo. Ventre pútrido, infamado.

Inflamações. As bocas sorriam. Vi os

dentes brancos. De joelhos nus, tu ias.

Eu excitava-me com as minhas pernas

arrumadas no caixão, dentro das calças

para sempre mal vincadas. E tu nunca,

nunca confessarias que me tinhas

conhecido, traído.Tiveste vergonha das

minhas mãos, tu, pútrida donzela. Do meu

rosto. Do meu corpo. Tu. Aquela que.

Meditaste? Ranho verde. Vendida. E eu.

Olhava. Chuva. O oceano, ondas

murmurando ao longe, nas estrelas.

Ou nas estradas. Ou nos comboios da

ordem falsamente restabelecida. Tudo é

ensaio, simulação, divulgação do erro.

 

And here we go again. Passar a ferro as

rugas da memória, as recordações.

Embalsamar-te para que te amassem

no futuro, as pernas bem abertas no

colchão, a boca aberta a sussurrar.

Pagarias assim. E recebias. Ou não.

Vidros partidos, marcas. Resíduos. Dos

meus dedos na tua pele a infectarem-se.

 

Tantos rostos. Se elas. Se eu. Sorri. Se

  1. Don’t flatter me, please. Your legs,

your beautiful legs esmigalhando-se

again contra o lençol das cortinas que

para atenuar a mancha nós. Oh. Sem

remorso. Sem. Sem recordação. Que

fizeste? Vem comigo. Estás talvez não

sei se perdoada por engano. Imagino.

 

Anda. Mexe-te. Abana-te. As pérolas

dos colares na varanda de madeira

do teu pescoço. Eu: não sei cantar.

Nem sei ouvir. E o dia esplendoroso

ria-se da minha pena, da ausência

intrigante dos meus pensamentos.

 

Se não me odiassem. Se tu. Ninguém

regressa, nunca. O cão entre as mesas

do café abanava o rabo. Ser sem alma.

 

Amamos nas auto-estradas, assassinamos

a todas as horas de expediente normal.

A oposição nunca cairá. Infortúnios.

O alcance dos sonhos. Salva-me. E o

cão. Minúsculo, ridículo. Ela dava-lhe

beijinhos no focinho, chamava-lhe filho.

 

E eu tão só, nós tão sós. Milagres da

natureza morta. Uma história que se

possa resumir, recontar, recolher ou

queimar na vela do barco que pelas

ilhas ia ao sabor do vento. Correntes

de prata ligavam-nos ao fundo do mar.

Acenar. Olá. E a perdição e as vogais

poluídas pela tua garganta de cadela.

 

Não, eu não tenho pecados a confessar.

Não,  nem remorsos. Não haverá projectos,

o vapor  de água não arrefecerá na bruma

secreta das noites de vício, irrecuperáveis.

Quero mudar, quero emendar, corrigir. E

quero renegar. Tudo, não ficará nada. Nada,

ouviste? Eu sei lá. O que quero. O que sinto.

A dor? Mas isso existe? São fantasias.

 

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D

Mais sobre mim