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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

25
Jan19

JOÃO CAMILO - O AMOR DOS POETAS

 

 


Uma vez, já não sei quando, li um poema de

amor de um poeta português. Era o poema de

um rapaz de agora, com as qualidades dos rapazes

de agora que frequentaram a universidade e tiraram

um curso de letras. Ele escrevia nos jornais umas coisas

sobre a poesia dos outros poetas. Eu achava-lhe piada:

tudo o que ele escrevia nascia de uma profunda irritação,

coisa infantil e que inspirava ternura. Entendi o que ele

queria: queria que todos escrevessem como ele e os seus

amigos e mestres poéticos (outros rapazes, mais velhos,

que eu também tinha  conhecido na universidade e de que

me lembrava vagamente). No poema de amor que eu li um

rapaz beijava uma rapariga. E enquanto a beijava e as veias

da boca lhe estremeciam de desejo o jovem amante pensava

em mares distantes cheios de perigos, pensava em temíveis

corsários. Não percebi por que razão beijar a rapariga

levava o rapaz apaixonado a pensar em corsários, em

cenas violentas com espadas e canhões. Mas é verdade

que nenhum amor, nem mesmo o amor de um poeta

português perdido em Lisboa nos seus pensamentos

confusos, é uma aventura sem perigo. O poeta, perdido de

si mesmo e da realidade que o rodeava, viu corsários no

pacífico Tejo, que nem sequer, como se sabe, é o mar ainda

- porque o mar, para quem não tenha o espírito perturbado

pelo amor, só começa lá mais abaixo. Já não me lembro

de outros pormenores do poema. Mas da cena do beijo,

do fantasma de Errol Flynn e dos corsários em mares 

distantes e cheios de perigos nunca me esqueci. Se a gente 

quiser ( e mesmo quando não queremos) tudo se relaciona 

com tudo: basta ter alguma cultura literária, imaginação, 

capacidade de juntar palavras de coisas que em princípio 

não costumam aparecer juntas. Uma metáfora não passa 

disso, afinal. E a dizer a verdade nem sequer é preciso 

ter frequentado  a universidade e ter tirado um curso de 

letras para perceber isso. Os poetas e os críticos de poesia 

são muitas vezes gente alucinada.  Vêem o que ninguém vê, 

pensam o que ninguém pensa, dizem coisas que não têm 

muito sentido. E são teimosos e irascíveis: querem que todos 

escrevam poemas como eles os escrevem e que pensem acerca 

da vida aquilo que eles pensam. Nalguns casos o sentido 

enigmático da comparação ou da metáfora revela-se depois 

e é esplendoroso; noutros nunca se revela ou quando se revela 

a gente percebe que o poema foi apenas um momento de desvario 

ou estupidez que aconteceu ao aspirante a poeta. Vem tudo a dar 

no mesmo. Só as palavras dos sábios verdadeiros se salvam do 

esquecimento imediato. E os sábios e os génios são, como se sabe,

apenas uma excepção na monotonia da maior parte das existências. 

Mas como dizia Celan:  aconcheguem as palavras do poeta no caixão 

ao lado do seu coração quando ele morrer; ele só as disse porque

elas lhe eram  necessárias para suportar a existência. O corpo

dos corsários era lançado ao mar ou caía nele varado pelas espadas

ou pelas balas. O destino do poeta é mais simples, aparentemente:

há-de morrer na cama, a recitar provavelmente o último verso do

poema que escreveu quando recordava a rapariga que uma noite,

à beira do Tejo, amou como nunca tinha amado ninguém.

 

 

 

 

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