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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

26
Jan19

JOÃO PAULO ESTEVES DA SILVA - CANÇÃO NO COMEÇO DO INVERNO

 

 

A minha vida sexual durou cerca de três segundos.
Quando menos esperava, por um breve espaço,
acedi ao grande instinto que informa tudo,
que move por igual os homens e os animais,
que impera sobre as plantas e até, sobre as pedras e o pó;

Aquilo que Schopenhauer confunde com o amor
e que não o sendo, em próprio, será figura do amor
e há-de estar para o amor como o quatorze para o soneto,
esse dinamismo impessoal, o sexo puro, nunca me tocara;
observara os seus efeitos, sim, mas só do lado de fora.

Já me acontecera ver cruzarem-se dois seres em pleno sexo,
que se teriam unido e, possivelmente, fecundado, de pronto,
se as circunstâncias não viessem poluir a incipiência pura;
corpos caindo um para o outro num instante de instinto,
durando à minha frente. Nada disso me tocara, até agora.

Mas hoje entraram duas lobas no café chinês,
com casacos de pele, sintéticos, grisalhos;
mãe e filha, talvez. Sentaram-se em baixo, no piso térreo,
numas cadeiras altas, junto ao vidro da janela.
Daqui de cima, pressenti-as, ainda sem olhar.

Só olhei quando a faísca saltou dos olhos da mais nova,
atravessou a balaustrada transparente e me acertou.
O casaco dela tinha a cor da minha barba, e o decote
deixava aparecer um espaço em v de pele de neve;
lobos saltaram do alto e quiseram mergulhar ali.

Ela levou, instintivamente, a mão à banda do casaco
e, para minha surpresa, abriu-o de par em par.
Agora sei o quanto as circunstâncias, a luz, a minha
posição sobreelevada, o ângulo preciso dos olhares,
a cor da barba, grisalha, a considerável distância,
me tinham transformado, por instantes,
em macho alfa, sem rival, multiplicador de alcateias,
povoador daquela bela extensão de pele branca
com uma fileira de dentes mágicos, novos.
E a força era grande e, para mim, também nova.

Ainda assim, virei a cabeça num estalar de ossos,
cortei a magia, fechei os olhos, longamente, e
pus-me a pensar em Schopenhauer, nos paradoxos
da liberdade— saber porque me prende com mais força do que o sexo
e a sigo como um escravo enquanto os uivos se calam.  














 

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