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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

18
Fev20

JOÃO RASTEIRO - "SOMOS ÓRFÃOS DE UMA GRANDE FOME"

                 A terceira miséria é esta, a de hoje.
                                     A de quem já não ouve nem pergunta.
                                     A de quem não recorda.

                                         Hélia Correia

No Senado
errámos todos o eloquente discurso
de nossos efémeros dias,
o amor nos interstícios da Pólis,
da história que depois do crepúsculo
merecíamos ter neste púrpuro chão,
e o panegírico do corpo
por onde se derramava o vinho,
e o eco cintilante como a palavra radiosa
na sabedoria e glória de Babilónia,
olvidam-se pela clareza da folha
de fausto “banquete às aves de rapina”.
                          *
No Senado
ignorámos todos a siderurgia do mal
de nossas resplendorosas batalhas,
a cegueira na divindade dos homens,
da voracidade que antes da obscuridade
se desgasta sob o tempo banquete,
e a extrema e pulcra dignidade do narciso
no qual desvive a inocência da beleza,
e a condenação que nivela o golpe
sobre a renúncia pura de outras Grécias,
desfazem-se ante a poeira das leis
deportando heróis “como espólio para os cães”.
                          *
No Senado
deslembrámos todos a profligação do verbo
de minhas perfumadas rosas e mãos,
um poema deslumbrado entre teus seios,
do lugar daquela fonte em teu corpo
mergulhado hoje ilha de bruma inacessível,
e prossigo, prosseguindo tu em mim
em poema ou “ideia de Pólis resgatada”,
e não cuido de mensurar a culpa,
a minha, a tua, a nossa, sob o coração da ágora
alimento o incesto que me agita
carregando um resgate imensurável” e cruel.
                          *
No Senado
agora, a fineza acumulada do linho
e do branco em dois frágeis mundos de vidro,
lambe-te o nome, cada odor e memória
circunscrita a uma só raiz de tristeza,
a minha que se esconde “sob cada pedra”,
o meu fulgor, o fulgor das Grécias
onde sempre se “pode esconder-se um escorpião”.
                          *
No Senado,
decide-se agora se a cicuta
deverá ser o castigo, para mim que te não esqueci,
se para aquela mãe que logo esqueceu o filho
recém-nascido, atirando-o para o caixote do lixo
nesta “morada da alegria” Pólis do Sul,
ah, miseráveis anjos despidos
sob um estreito sopro em frágil voo divino.
                          *
No Senado
excede-se o pudor da orfandade
da palavra justa, e em ramo de loureiro
a arder está o nosso nome
e embora cintilando pujante o sol para eles,
como usuários de parca sabedoria
que se estendem como anciões de crepúsculo,
não entendem que “sem bárbaros o que será de nós?”


                                                                                       
Janeiro, 2020


















                                                                        

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