Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

18
Out20

JORGE VELHOTE - PAULA REGO: A CIÊNCIA DA MÃO E DA TRISTEZA

 

Começa na cabeça uma linha que se ergue do ombro até ao olho.
Aí se emaranha de filamentos o cabelo de onde cai até aos pés
um novelo de ardósia para que se não esqueça onde a tristeza se demora.

Nessa opacidade lapida-se o que se inscreve do arcaico som da voz
onde se entranha a povoação dos animais e dos enigmas – é uma clausura
que arboresce pela mudez e no sussurro da roupa sobre a pele.
Não se ignore o que pela sombra se expurga. As mãos em riste desenham
uma diagonal que fronteira os pés descalços onde o vento parece ter plantado
um tufo de texturas fiéis ao negrume mais sombrio.
O pescoço de um cisne amarrado nos braços desentranha uma substância assombrosa
como se despendido fosse o momento nos seus volumes e segmentos
– depois é com infinito cuidado que se estendem as sombras do olhar onde drapejam
feridas oriundas do estudo da luz e do uso singular do que se instrui em dor
a pulso fidedigno e insiste.

Ao fundo podemos observar a fixidez de uma outra luz como quem recebe os frutos
de um sacramento um sinal especular que doura a eternidade desvenda a solidão
e deslumbra o indelével selo que defunta visceral.

Desse bafo se conduz a alma em oferenda numa alegoria subtil que alguém perscruta
com a paciência da lavoura ou rematada convalescença.

Sacode-se o júbilo com o cinzel oficinal e todas as criaturas acendem-se em vigília
no vagar mineral dos seus gestos que surgem revelando a exaltação incontida que tinge
o halo da pele que congrega como o pensamento escombra – aí difundem-se as cicatrizes
do amor o que vem e incita como lençol

e assenta o que meandra na alegria e difunde a efervescência do mito
em lágrimas escolhidas enquanto espanta na garganta o peso da matéria.
Agora o que se observa é um rasgão que não arrefece nem ausenta em tarefas e melancolia
– nessa penumbra enxugam-se os dedos consumindo o fogo e circunstâncias – o ofício
que incita o desassombro despedindo a dobra dos caminhos – a essência da sabedoria.

Sobre a virgindade dos anjos nada se diz apenas se observa estampado o que acústico se ilumina
célere na sua ausência a operar a minúcia infalível da velhice e nessa atenção a claridade insólita
ergue o que prolonga a dor em sua orla e vagar e de dentro aponta o que embacia
o que é dado ver – não se constrange o que é sagrado o que subsiste em luto e na escuridão
incandesce íntimo do sigiloso e das entranhas mais fundas como pranto de lajes e lucidez a enlutar.

Nesse anonimato ilustra-se o que a morte oculta o milagre onde se declina o que se distingue
a desolação que o tacto percute na mão se a tristeza é dolorosa e escama o espírito no seu sopro
e despenha tenso dando à luz obstinado utensílio – nesse labor agasalham-se os matizes da nostalgia
o que fulmina nas trevas insidiosas os espasmos da pupila e crava na carne a sua mão.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Mais sobre mim