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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

09
Dez19

JOSÉ EMÍLIO-NELSON - DE MALDIZER - A UMA ILHOA GAITEIRA

1
Ó Devota do Espírito Santo! Ó gaiteira!
Que tamanha lata!, intervalas com azia, a despejar a bexiga,
horas inteiras a tramar as que odeias, em esperteza a
acumular, o que escondes,
Da Terceira ao Corvo, no sutiã que falseias.
Numa cama sem que ouses, escanzelada, ranhosa avara,
Respeitar quem lá não pouses,
As esconjuras de sebo e pavio, de mezinhas,
Por serem, ó devota!, o que não és.
Nem sequer limpas o baixo, tresandas, sujas o pescoço
escondido em rasca vaidade,
Não poupas no sabão para compor as gadelhas.
Nada altiva, mas inchada, usas sapato como se fossem
andas, e tresandas.
E há gargalhada abafada de quem por pudor vira a cara
À roupeta que vestes e despes facilmente por tontices.
E tresandas, por onde andas és mujer emplumada (e és
gallina, ó abstrusa!)
(E tresanda regalada de toda a trapaça.)
É essa a tua fezada: que confundam a balança da Cega com
a dos trafulhas de vão d’escada
Para que parentes enchumacem a calça, que não os têm à
nascença.
Lê Quevedo.
2
A Ilha é tão delgada que, entre nós,
A encontramos ambiciosa, sempre enganadora
A acenar para apanhar um que não se importe.
Deixou a bolsa na cadeira, no Arcanjo S. Miguel que a
tolera.
E coitada, pôs-se de guarda, de esguelha,
Talvez a roubassem, em flagrante delito,
Era para ganhar a contenda, com soberba,
Mais, mais e moedas mais do que até hoje entesourou com
armadilha de pisco.
Mas não havia por ali gente de penas, quando espavorida,
Com as vísceras a acusar o alarme,
Malograda, a ganir para a retrete, a urinada.
Os latidos que se ouviram, a descarga do autoclismo,
Era de ladra presunçosa e a ladrar o intestino. (É diarreia,
hélas!, negava, antes nitrato de prata, que esbanjava, ‘para
ser-lhe espelho’ na sanita.)
3
Foste vil na vingança, avara,
E não faltaram pajens de toga, favores com frieza d’alma.
Amparada por alheios, bem mereceste a livrança.
Gaiteira, não disfarçavas a ostentação, engalanada, às rosas.
Outra vez que o não mereças por seres aquilo que pressagio,
Vais padecer de remorso, perder alento,
E nunca disso esqueças.
Sem o deleite de outrora, aleivosa,
Irás vender o dente d’oiro que o coveiro descrava.
(Com o véu de temerosa a ver-se fenecer, larva, escumando,
Mete o pescoço na campa, ou intestino?, que a alma, ou a
bexiga?, já se lhe deu.)

 

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