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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

26
Jun19

josé luís borges de almeida - CHAMAM-ME POESIA

 

 

 

é sempre assim, durante aquelas horas paradas da

noite, em que ao balcão de um bar quase a fechar

olhamos para o fundo de um copo vazio onde não

é agora possível afogar os pensamentos sombrios,

que ela entra com aquele seu passo mais calculado

do que decidido, e dos inúmeros bancos vagos vai

escolher um, esse mesmo, e se senta ao nosso lado.

depois tira da bolsa o clássico cigarro, pede lume e

pergunta com voz mais decidida do que calculada

se podemos pagar-lhe uma bebida e conversar um

pouco. dizemos que não, não queremos, ou ainda

melhor, inventamos uma desculpa e respondemos

que não podemos, não temos dinheiro. ela devolve

um olhar desanimado e pergunta se sabemos quem

é. o cansaço tomou conta de nós, um gesto com a

cabeça responde que não. então ela sorri, inclina

aqueles seus lábios pintados e diz-nos ao ouvido:

sou quem poderia melhorar o que escreves se em

mim acreditasses, sou quem te ajudaria a escolher

palavras mais certeiras, as que tanto procuras sem

jamais teres sucesso. há um clique em nós: ah és a

nossa musa, desculpa, não te reconheci. não, nada

disso, diz, sou só uma puta a quem ninguém paga

um copo. eu bem os vejo a olhar-me com uma gula

mal disfarçada. depois, quando os enfrento, fingem

que nem me conhecem e nunca dizem o meu nome

mas, vê lá tu, os polícias de giro chamam-me poesia.

 

 

 

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