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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

12
Set19

JOSÉ MIGUEL BRAGA - CHUVA

 

Esta chuva é tudo o que existe
Depois estão os livros e os pensamentos
As janelas acesas nos prédios
Onde não sabemos o que existe
Depois de Rimbaud depois de Apollinaire
Esta chuva que resume o espaço e o pensamento
E não há festa não há Deus enquanto a chuva
Com a sua realidade ingrata e os seus cafés sem gente…
A esta hora ainda ninguém se dispõe a escrever o manifesto
E os discursos são ainda mais vãos
E tudo vai morrer a caminho de coisa nenhuma.

Enquanto esperamos pela próxima refeição
Conversamos sobre o sistema e o que ele esconde
Na intimidade dos projectos no curto prazo
A política favorece as saídas à noite
No meio do álcool e da miséria alguns vão lá abaixo
Procurar o inferno mais um dia uma hora
O frio dos justos o comércio das campas
As igrejas restauram e os sinos cantam à finança
Só ela pode salvar a aparência
Ó barcos ó miséria da história e do presente
Ó flores molhadas com suas rãs infelizes
Ó guindastes à espera!

A chuva pára e há-de parar até aos incêndios
Para que tudo volte a ser verdade
E os sentimentos também com a sua pequenez de rins
Com a sua desfaçatez de príncipes do jogo
Ó miséria outra vez desolação astral
Só o milagre e a acumulação do capital
A espiral e as suas máquinas
Meu estro cavalgado em barroca estridência da rua pequena
Querias uma ode e eu dou-te o que posso
Alguns pensamentos oblíquos frases do acaso
Influências da leitura que não são arte não
Apenas trabalhos e atenção aos morcegos e ao sol da meia-noite.

Tenho que pôr óleo no motor
Cheira a queimado
O mundo vai por aí abaixo na encosta sem ramos
Não é possível já não é possível a guerra convencional
Um vómito ou um incómodo dentro de um copo
Enquanto a cerveja flameja e o silêncio crepita
No calor do fim do mundo
E os poetas descem da casa navegada
Os poetas impossíveis e as malas dos assassinos
Prepara-se o golpe num novo café do centro
As fronteiras cavalgam as transações e os melros não contam
Ai os metros não cantam sobre a rua gelada
Ó amor és luz e corpo de fina dança
no seu balanço de neutrino.








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