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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

14
Ago20

LÍDIA BORGES - ESCRITO A FRIO

 

Uma tinta espessa
tinge de negrume o olhar da mulher.
E toda a beleza do mundo,
catedral incendiada, cai por terra.
De súbito, somos atingidos por pedras,
cinzas, lavas, brumas,
gritos, soluços, entulho, betumes…

A mulher vai completa – dizem-me.

O som das palavras,
gongo que se desdobra
atravessando o cosmos,
vem repercutir-se
dentro dos tímpanos
até à exaustão do eco.

Rompe-se um movimento brusco
a partir do coração:
tontura, nave, naufrágio
e todas as letras mudas de espanto.

A mulher leva as mãos vazias: vai completa. 

Que instrumento para medir a densidade
e a turbulência
do arrefecimento brutal das mãos?
Um densímetro, um sismómetro?

Quantas horas de dor, de dádiva, de dúvida,
quanto quilómetros de palavras não ditas,
de silêncios acordados,
quantas farpas na face ferida,
quantas toneladas de ternura esboroada?

Quanto de tudo isto e de tudo que não isto
é necessário para se sentir bem
o não sentir?

Procuro com os olhos a mulher
que deixei num verso, aí em cima:
Oh, lá vai ela. As mãos vazias. Completa.

Nenhuma espera a perturba.
Sairá do poema pelo próprio pé.
De pé.


27/07/20



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