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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

31
Jul19

LUÍS FILIPE PARRADO - AUTO-RETRATO COM ICEBERGUE

 

 

Toda a mudez será castigada?

O icebergue é uma versão desamparada da voz

daquele que, aqui e agora, de uma outra coisa quer falar

e “não sabe como, para quê, nem a quem”.

 

Pedra de amolar factos e tesouras,

o icebergue é um rombo de luz negra que,

como se para sempre, reflecte

o inadiável material fluorescente da biografia.

 

Dessa outra coisa a haver a palavra que melhor conheço

é invocação, uma linguagem preciosa de segadores,

o orgulho de retribuir com delicadeza uma espécie de testemunho.

 

Corças escavam no peito se recito a essa luz

porque toda a operação singra em recitação,

dupla sombra dos espelhos visíveis

apenas na onda mais tardia que rebenta na falésia.

 

Neste súbito mergulho no mar o corpo

afasta-se definitivamente do espírito

que gerou a sua aparição e retorna,

como um filho de Édipo, à corrente gelada

que o empurra para baixo, para o centro

da sua própria origem e dissipação.

 

Agarrado mortalmente aos braços do náufrago

tombo no poço da noite sem o saber,

sem saber se no poço da noite quem me espera

é “o fogo amante ou a fera assassina”.

 

Só então compreendo que o icebergue

é matéria titânica e flamejante, resistente aos ventos

e às águas, que se desprendeu um dia do gelo continental

da língua para vir embater, em surdina, no estranho

e vulnerável casco de papel do meu absorto coração.

 

 

 

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