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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

28
Nov19

LUÍS FILIPE SARMENTO - "PERPLEXA E ACIDENTE"

1.

Perplexa e acidente. Motriz do olhar na contemplação do abismo como insinuação de um prazer incauto. A imprudência inevitável. Um coup de foudre. A súbita invasão da consciência cardíaca. O medo. Não. A angústia do desastre. É sempre uma catástrofe. O esgotamento de si no seu desejo. Robustez do rubro que calcina a expressão, a sua desfiguração, a perda de identidade, o sobressalto do corpo. A contenção da explosão que identifica a exaltação na reciprocidade do olhar, a interrogação que nada permite. Nem o arfo. A química do sangue na sua exuberante resposta à especulação do desejo, o suor frio que assusta. Protagonista em si do desespero que antecipa o que ainda não é derrota, mas que o será na apoteose da vitória. Paradoxo do prazer. Deleite inscrito na ilusão que predefine a coragem como fragmento do primeiro gesto. É o silêncio que predomina na boca que segrega os humores do pensamento rápido e tenaz. Boca a boca. Pretexto da luxúria indagando sabor quando ao toque a sua ausência estimula o caos do movimento circular sem sentido definido. O limite da acção muscular estabiliza o pensamento, frui a língua na linguagem intertextual complementada, sem metáforas, com o gesto, o toque noutras latitudes, de novo o cardíaco, a desordem do espírito, o superlativo desejo na angústia da fronteira, o debate com o obstáculo moral que impede no instante a primeira nudez. A perplexidade pela instituição do desequilíbrio, a queda em si e no outro, a inclinação do outro em si, o êxtase do equilíbrio instável, o desmoronamento das aflições, a queda dos seus fragmentos em figura sonora sufocada, a entrega ao deslumbre, o acidente como primeiro fetiche, a sombra do fantasma que promete a eternidade.

A ilha aos amores transfigurados, territórios ao mar, grutas às marés, a cripta do futuro a haver, o teu nome tão marítimo e nacional como quem soletra a sílaba dos poros, a palavra fonte, manancial de desejo no tríptico que se escreve ao amanhecer da tarde. Fluentes os silêncios que retumbam nos corpos de pedra até ao profundo suspiro que anima a estátua perdida, da ardência apaixonante ao grito vulcânico da exuberância plena do prazer. 

 

In Rouge (a publicar)     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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