Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

16
Mar20

LUIZA NILO NUNES - SOROR MARIANA

 

Poderia abrir roseiras com as mãos
e ser picada pelos bíblicos espinhos

Ser a virgem cujo pulso fosse o caule da paixão,
cuja menarca desenhasse um vaticínio sobre a neve
ou cujos ossos se acendessem pelo frémito das aves

Poderia ter cabelos perpassados pelas aves
Ser dos pombos a palavra combustiva que os inflama,
o sacramento que lhes bate como um sopro nos pulmões
e os faz sangrar e circular urgentemente à minha volta
Ser o ponto do cordel e o filamento do liame,
a linha branca que remenda a contusão das suas asas

Poderia ser tocada pelas águas dos vitrais
até que as águas inundassem os corredores das igrejas
como as águas mais profundas e obscuras do dilúvio
e eu mergulhasse como os peixes que se entregam
para os rios, como os cardumes de crianças
placentárias que regressam
e eu voltasse tão lavada e impoluta à superfície
que o meu sexo brilhasse como a pérola de deus

Silenciosa eu poderia ser de deus o melancólico
delir de uma roseira
ou a sinistra solidão de atravessar um orquidário
ou um perfume muito antigo que doesse

Eu poderia ser de deus a substância que doesse,
o receptáculo doloroso, o vasilhame lacrimal
como nas cartas os registos caligráficos da mão 
ou como as túnicas dos mortos escoradas nos varais,
como a camisa carcomida
e o perfume do rapaz
a quem se ama para sempre a lividez e o extravio
ou o seu hálito de lírios transmigrados para a sombra,
o seu invólucro de lírios inclinados para a sombra

Eu poderia ser um cálice de lírios e de sombra
Ser os lábios que sangrassem nos arames do latim
até que a boca proferisse tenebrosas orações,
até que a boca procurasse a vibração da tua boca
e a nossa boca fosse um vínculo entrelaçado de cordões,
um feixe negro
ou um rosário de saliva,
um grande vórtice de pássaros
tombados no amor

Eu poderia olhar os pássaros do céu de Düsseldorf
e levantar-me para o som das catedrais
sem levitar como Teresa
e flamejar como Joana
Ter na carne de livores marcas negras de batom
ou entre as coxas os sintomas de uma língua passional
como se a morte vorazmente me chupasse
e pela noite, no suor dos cobertores
comprimir-te contra o peito como fazem as mulheres,
quando o cio acende tochas nas cabeças das mulheres,
quando a carne é desflorada pelos cascos das mulheres
Poderia até trocar-te por madeixas de mulheres,
por pastoras ingressadas no silêncio dos redis,
por cavaleiros que se despem livremente no princípio

Eu poderia ser o corpo solitário do princípio
Dar à carne florescida pelas águas do baptismo
o esplendor de um animal noviciado
e com a face então picada docemente pela luz
deitar-me nua sobre o chão
e esperar-te












































Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D

Mais sobre mim