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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

11
Set19

MARIA GRACIETE BESSE - REMEMBER LIDICE

 

 

1.

 

Em 1942, a menina de Lidice tem sete anos e um imenso laçarote

nos cabelos escuros, como borboleta gigante a desafiar o sorriso tímido

e os olhos encolhidos, talvez de pânico.

 

Mora com os pais perto do moinho, na casa n° 96, mesmo ao lado do riacho.      

 

Nesse dia de Junho de 1942, escolhe o seu melhor vestido de linho branco 

bordado com flores vermelhas, pequenas rosas de inocência e nostalgia.

 

Quando a arrancam dos braços da mãe, a menina de Lidice nada sabe

do massacre e pergunta de coração acelerado

para onde me levam? para onde me empurram? para onde me afundam?

o assombro a crescer na aldeia enlouquecida, o fumo a picar a garganta,

o vestido amarrotado com o desfazer das rosas entre lágrimas de espanto.

 

No meio das ruínas, a menina de Lidice quer colher uma palavra uma carícia

mas olha o céu muito azul e pressente a estranha conjunção onde respira

uma evidência que desenha a eterna crueldade dos homens.

 

De súbito, a menina de Lidice sabe que nunca vai crescer.

 

Durante a precária viagem, agarra-se às últimas arestas do mundo

e escorrega com as outras crianças para o vazio definitivo

todas asfixiadas num camião negro de Chelmno.

 

A menina de Lidice que desapareceu na tirania do silêncio

tinha por nome Venceslava Krasova.

 

2.

 

O vestido da menina Venceslava, exposto numa vitrine do museu,

tem no ombro uma mancha de lágrimas, de luz

de medos coagulados

 

ou apenas uma nódoa de pura crueldade?

 

talvez a semente de uma asa

a crescer

no corpo inefável do tempo.

 

3.

 

Das 105 crianças que viviam em Lidice, em Junho de 1942

 

82 foram assassinadas em Chelmno

6 morreram num orfanato

17 regressaram, entre as quais 9 adoptadas por famílias alemãs

que não as conseguiram germanizar.

 

Da menina Venceslava Krasova, ninguém se lembra.

 

Num ângulo do museu, o seu vestidinho bordado desafia 

o peso do esquecimento.

 

 

Maria Graciete Besse, 26 de março de 2019

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