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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

15
Set18

MARIA JOÃO CANTINHO - OS QUE SE CALAM

Os que se calam

são os que vêem morrer os filhos

na poeira da tarde

ou nas encostas bravias das montanhas

ao som do silvo das balas

arrancando-lhes a vida.


Os que se calam

trazem a esperança no olhar

são os que caminham em hordas

e atravessam o frio, a neve escura

os que mergulham na noite

fugindo aos soldados que vigiam as fronteiras.


Os que se calam

são os que atravessam diariamente

os postos de controle

sabendo o que os espera

a cada dia, sem que nada os salve.


Os que se calam

são os que já não vêem os filhos

os irmãos, as mulheres, as mães

depois de terem saído de Gaza,

como Ahmad, como Gyhad,

e outros tantos sem nome.


Os que se calam

são os que atravessam todos os dias o Mediterrâneo

são os que seguem a rota da morte

sabendo o que os espera

e sem olhar para trás.


Os que se calam

são os que assistem às convenções

onde se decide o seu futuro

os que são tratados como cifras

numa obscura matemática

onde só os mestres

detêm os espantalhos.


Os que se calam

são presa de caça

nas belas e ricas cidades da Europa

em rituais macabros onde canta a cruz suástica.


Os que se calam

têm nome, corpo, filhos

mães, pais

coração, rins,

língua, saudade,

fígado e têm tudo

igual aos caçadores, aos assassinos

igual aos que os humilham e lhes apontam o fuzil

e lhes metem uma bala entre os olhos.


Os que se calam

os que nos calam

os que nos olham de frente.

 

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