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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

11
Jan20

MIGUEL REGO - PUDESSE EU...


Pudesse eu irromper pelo teu quarto, de pistola em punho,

e assustar as sombras dos móveis que se exibem fora do lugar comum da tua noite.
Trocar as gavetas, partir os puxadores,
rasgar o teu vestido de casamento que descansa adormecido em alfazema
e cânfora na arca de carvalho
que os antepassados do teu ex-marido te ofereceram.

Com a coronha da pistola, quebrar o espelho orgulhoso de época vitoriana,
na moldura de pau-preto,
que reflete o desespero da manhã nos teus olhos glaucos
do medronho, do gin, do fumo dos Gauloises que alimentam
a tua ausência até eu chegar, imenso,

de pistola em punho e teclas de piano a saltar dos dedos.

Pudesse eu invadir o teu quarto, desfazer a tua cama, mergulhar no limbo
que é esse teu colchão de molas partidas e cinzas de incenso,
onde os lençóis de linho amarrotados transpiram a noite marcada
pelo tique tiquetaque exasperante do relógio de parede.

Juntar depois os pedaços desses teus sonhos,
que na raiva das tuas insónias rasgaste milimetricamente no sítio
onde estavam as nossas lembranças…
e as colocastes na lareira da tarde de Verão incendiada
pelas recordações banidas do teu dia.

Pudesse eu irromper, quarto dentro, e refazer a noite branca
invadida pelo luar cego da Lua cheia
antes de queimares os pequenos fotogramas
onde eu, ridículo, barba por fazer, corpo flácido, pulmões queimados
pelos gritos cristalizados da tua ausência,
me escondo da mentira de estar aí.

Pudesse eu irromper, quarto dentro,
e contigo, sentados ombro com ombro na beira da cama macia,
prender-te uma madeixa solta, desse teu cabelo feito algodão
e dizer-te:

bom dia, o café está à tua espera.

E os dois, de pernas bamboleando na beira do precipício do telhado,
olhando a falésia sôfrega de mar,
contar os ganchos de cabelo que cosem os nossos lábios adormecidos
pela noite em que não nos conhecemos.

Pudesse eu, pudesse eu…
e serias o pássaro de plumas azuis que assusta as casas vazias onde nos adiamos …

 

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