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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

14
Jun19

NICOLAU SAIÃO - PALAVRA

 

 

                                 “Um dia seremos salvos por uma palavra”

                                                                                Diodoro de Sicília

 

As palavras não caem no vazio

diz no Zohar

nem dele chegam até nós.

As palavras crescem umas vezes na amargura,  outras na indiferença

outras ainda no reboliço das horas

As palavras afeiçoam-se alegremente como um brinquedo de madeira

como uma iguaria que tanto tempo se aguardou

sob uma latada, na manhã ou na noitinha nascente.

As palavras sabem tudo ou então,  o que inda é melhor

nada sabem   e buscam o seu lugar entre os objectos da casa

num recanto do contentamento.

Uma vez pensei

em qual seria a palavra mais bela, a que de repente criaria

para este aquele  um momento de completa serenidade

um hálito fortuito de alegria

ou simplesmente um minuto de angústia

- aquela que não punge, que é recordação

ou apenas realidade.

 

A palavra roseiral, que em pequeno ouvi

e que sempre me acalenta

a palavra horizonte, que nos intriga e que tem por detrás

tantos sonhos humanos de aventura e de crime

A palavra silhueta, a palavra caminho

e essoutra – madrugada – que abre o nosso coração

e o torna a fechar depois.

E tantas, tantas outras que nos rondam os dias que temos

e tivemos

Por exemplo a palavra que nos cai em cima como uma árvore abatida

 - pobreza – essa palavra tão infeliz, tão só. Tão perturbada.

Palavras em espanhol, com seu guiso e suas lonjuras, palavras

em francês esvoaçando, em romeno com o seu passo

balançado como uma dança

palavras em islandês e quíchua, essa improvável levitação.

 

Mas a mais bela palavra sou eu que a tenho

e a trago sempre comigo: nos ouvidos, na memória,

no coração e nos pulmões

Entre as mãos e sobre um joelho, no cotovelo

e num bolso da camisa

e por ela serei salvo. Por ela cheguei ao meu país

onde o mistério se acoita.

Essa palavra 

fui eu que a descobri.  E é inteiramente minha.

 

Qual foi e qual será

qual era? Quem a conhece?

 

Quem a descobrir

que ma diga ou então, não podendo

 

que me a escreva, numa folha

amorável que me mandar

ou numa pedra

que me atirar

envolta num papel com ela escrita

 

em qualquer dia que calhe.

 

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