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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

14
Jan20

NICOLAU SAIÃO - ENVIO - [Em memória de Nuno Rebocho (1945-2020)]

 
Se nos pedem um poema, num qualquer dia de Abril
a nós que moramos entre o exílio e o reino
que é como quem diz   entre a hora do lobo e a hora
do  cigarro, devemos responder: “Sim senhor. Vá com Deus.
Lá o terá, em tempo”. Ou, entrando na verdade – entrando
na grande manhã – dizer logo que não
que ultimamente os meses nos aborrecem
que há um som inquietante à hora de deitar
em suma, estamos a Sul
da tal alegria, do tal raminho de hortelã
como quando em criança isso bastava ao velho olhar
de um dia a outro dia: segunda, sexta-feira…
Mas descrevamos os meses, descrevamo-los
como mapa deslindado ou então como simples hipótese
(ou seja, maravilha abandonada, imagem temerosa
que o acaso nos ofertou, coisa feita de somenos
ou de somais realidade legítima ou sinistra): descrevamos
Janeiro, lugar onde há um rasto de sangue numa pedra
ou Fevereiro, o tempo em que a voz disse coisas inúteis
e Março, paraíso dos calendários e dos planetas que rodam
no céu de Abril quando a cinza cobre os campos e as fontes.
Olhemos Maio, pátio lajeado onde a chuva já não tamborila
a não ser que uma certa mão faça deter as horas
e olhemos ainda Junho, e façamos uma pausa
para pensar, por fora do poema, em coisas como uma sala vazia
um rumor de passos atravessando o antigo corredor
e a lembrança dos outros países de mistério
para sempre desaparecidos. E Julho, com os seus vultos imprecisos
com nuvens e ventos e outra quinquilharia poética, que
no entanto prende as horas de realidade ou de abandono
dos minutos de Agosto, lugar verdadeiramente ausente
- que nisto não há simulações, apesar do que se possa conceber
e a cada ondear do poema corresponde uma recordação
ou uma tristeza  ou uma
perda de coisa ou pessoa, de imagem ou reflexo
(esse Agosto das flores mortas sobre rostos de pedra) –
E então chega Setembro, a antecâmara dos finos silêncios
quando uma linha traçada num papel pode representar o adeus
e já se anuncia Outubro, guindaste sobre uma ponte derrocada
para que o Natal se apresente com as amplas figuras do mundo
e os ventos tornados brisas de angústia e de lembrança desaparecida.
E antes ficou Novembro, com plantas que se estendem sobre os corpos
com dias de aniversário que os anos foram devorando, com
algumas velas no mar, alguns animais passeando entre as árvores.
O Novembro dos seres e dos não seres imateriais e algo solenes
por vezes com vinho novo dentro e fora do que se escreveu
e os olhos em amêndoa e plantas exóticas pelos cantos.

Os meses têm o seu minuto e o seu perfil
chegam sem que a gente se dê conta e então é tarde demais
eles oscilam por vezes como se o cansaço os apertasse
entre designações ora vagas ora luminosas (como a chama duma vela)
e mal nos distraímos é de novo madrugada.
E eis que já partiram, com seu logro e sua bondade
como vagabundos ao luar, olhando os horizontes exactos
naturalmente reconhecidos, amados    com sua eternidade

ou ironia.


in "Escrita e o seu contrário"


* Na edição de hoje, a Gazeta de Poesia Inédita presta homenagem a Nuno Rebocho,
poeta e homem livre, que nos honrou com a sua presença nesta página.


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