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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

26
Mai19

NUNO BRITO - TU QUE TUDO UNES (ODE SOLAR)

 

 

 

Tu que tudo unes

Arde dentro de mim até ao fundo.

Enche o meu coração de sol, de vida e de esperança.

Sopra na minha alma o teu fogo mais perfeito

Deus, montanha, rapariga, roupa estendida ao sol

que os meus olhos vejam a tua perfeição em toda a parte

que o meu coração se encha de ti.


Como um pássaro

Uma boca

Um incêndio

o amor vencerá sobre todas as coisas.


Nas têmporas da égua que corre

na pedra que se parte no sul

no coração do ouriço que bate rente ao chão

no ouro, na prata, na cerâmica sigilata

na semente da ideia mais pura

no fim de cada canção

a palavra liberdade a arder

no coração de tudo aquilo que cai

como uma coisa que se sopra para nascer

em muitos sítios diferentes ao mesmo tempo

uma fotografia velha, o fim de uma tarde de verão

Uma ideia de esperança, um dente de leão

Tudo isso com início e com fim

material, pequeno, irredutível, sem nome e sem posse,

com a sua própria contradição, o seu caminho plural,

Tudo isso eu amo até ao fundo:

Pegadas quentes de duas lobas sobre o gelo

nomes de dois amantes numa ponte;

Respiração quente de um recém-nascido que dorme

Amor que lhe contorna a nuca,

húmidas respirações num carro em Edimburgo,

coração desenhado no cimento,

Cadeado - símbolo de quê?

humanidade em marcha, eternidade solar

nuclear, nascente, segura,

Como uma âncora.

Tudo isso eu amo profundamente até ao fundo:

Conto sem conto, conto com conto, canção

e o alfabeto, e os números e as estações, e as cores e as formas,

Arde dentro de mim como o nascimento de uma árvore

Que agora mesmo enterra as suas raízes até ao fundo

Solar potência de cada um.

Solar nascimento e mudança de cada um.


Agora mesmo um pássaro gordo pousa em frente à porta,

e acredito na humanidade até arrebentar.


Uma menina atravessa os campos de trigo.

As espigas estremecem com o vento quente do sul.

O silêncio antigo do sol entre cada pulsação do coração.

conta um segredo de luz e espuma – ouve bem -

um ninho que guarda ovos minúsculos -

a rebentar por todos os lados,

as correntes fundas e quentes de um rio que se adentra no mar.


Tu que és montanha

e cimento e conjunto de limões,

enche-nos da tua vida pura e continua,

do teu riso, do rompimento

que cada semente traz consigo

da ressurreição de cada passo


Tu que tudo unes

Arde dentro de nós até ao fundo

Como uma coisa que se sopra para nascer

Como uma coisa com início e com fim:

Pequena. Material. Honesta.

Irredutível.

Como uma coisa que não para de nascer...

 

 

(Março de 2019).

 

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