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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

02
Set18

NUNO BRITO - ODE QUE FERVE II

II.

 

 

Escrever no centro da memória mais pura:

Eu sou a vida a pulsar no coração de cada pessoa.
Olhar-te de frente nos olhos, de trás, de todos os ângulos.
Dar um nome a uma pedra, a um botão.

Apontar num caderno que cada poema é um gesto de liberdade,
que uma menina começa agora um desenho do sol,
e que o seu coração é um animal solar.

Esquecer com força. Respirar com força.
Dizer muito baixinho: mas com decisão:
Eu sou a força de libertação no interior de cada pessoa.

O sol a arder num fio de cabelo 
O sol a arder no coração.

 

Uma rapariga a respirar fogo

o cruzamento de dois rios,

 a força viva da liberdade,

o outro lado (absoluto) das coisas.

 

Escrever na pele das árvores, no barro, na cerâmica sigilata, em todos os vidros, em todos os muros, no coração dos pássaros, na areia molhada, num quadro negro, no vaso mais pobre, no coração do sol: escrever (como quem nada) que uma menina sopra o medo para longe, e ele se consome como um balão que sobe na noite mais quente do ano. Como quem pede boleia para outra canção. Escrever no centro do coração que uma força antiga nos reconstrói, nos faz vibrar com mais força, e arder por dentro, até às fundações, até ao centro da terra, até ao epicentro de um milagre. Escrever na sebenta que uma força viva nos une e que um relâmpago abraça o mundo com a força de um colosso, de um menino, de um mensageiro. Escrever com os dentes, com os pés, com os cotovelos, que o sangue começa o seu caminho silencioso, que os pássaros migram e cobrem o planeta com as suas rotas, que agora mesmo o sonho de um ditador é assombrado por um menino com um lápis na mão. Escrever como quem começa uma marcha, um incêndio, uma desordem: que somos uma força viva que começou uma viagem de regresso, um acendimento do mundo. Que o nosso nome já não é o nosso nome, que a nossa pele não é só nossa, que tudo será novo a partir deste instante, renascido para a verdade, para a unidade. Escrever na pele das árvores que um poema começou, que um caracol começou a sua marcha, que um caule rompeu a terra, que a vida é invencível, eterna, colossal: dar o nome a uma pedra, a uma mosca, a uma rolha. Sentir-se completo e cheio como um animal feliz no centro de uma migração.

                                                                                               Um animal feliz entre outros.

 

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