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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

16
Ago18

NUNO DEMPSTER - MEDITAÇÃO

 

À espera de ser tempo um só momento,

sentado ali num banco de jardim,

sempre num banco igual, onde se esvai

o tempo que julgara possuir,

 

sentado ali, digere o presente ido

na sombra tranquila dos carvalhos,

subindo já do lago a névoa antiga

com os últimos cantos da folhagem

 

e arrefecendo a pele sem carícias

que o torna num passado de insucessos,

enquanto na outra margem do relvado

um músico compõe para a memória,

 

já os vultos dos melros goliardos

tinham partido, unindo-se ao futuro,

assobiando os versos de Carmina

e, arcaicos, saltitando de malícia.

 

Ninguém pode queixar-se, simplesmente

porque o acaso não tem rosto, é um deus

mais feroz do que os velhos deuses todos,

amaldiçoa sonhos, corpos, bocas

 

que preparam o seu canto elegíaco

com pena de si mesmos e dos gestos

perdidos com que criam ser possível

dar alento ao amor no corpo oculto,

 

oculto e adormecido, e desejado

no próprio sacrifício. Ninguém sabe

por que motivo, nada nem ninguém

justifica a razão por que morreram

 

os dois ali, num banco de jardim,

fruindo a paz serena dos carvalhos,

num fim de tarde visto tão por dentro

que pareciam ter ainda tempo.

 

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