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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

03
Jan19

RENATO FILIPE CARDOSO - LAICA VIRGIN

 

 

por vezes aterra em mim um pensamento pouco nobre,
para não dizer frequentemente: entrego-me
à fórmula efémera de pedúnculos de adágios tontos
lucubrações disparatadas ou idiotas
e decerto para parco reconhecimento junto do público
menos ainda da vastíssima elite que não só lê poesia
como também atribui rendimentos mínimos
através de prémios em bicos de pés
que se auto-arvoram como pedestais numa latrina,
enfim, fabulações menores para o quê de imaculado,
insondável, de que deve revestir-se o desígnio poético
em que ninguém concebe o ou a poeta a lavar louça
ou a limpar o rabo, não necessariamente nessa ordem.

dou alguns exemplos: filho da puta e funcionário público
respondem pelas mesmas iniciais;
chichi e cama, enquanto a idade não nos troca as voltas;
ou então, em estrangeiro (bem melhor se há ambição multinacional),
niagara falls, viag'ra lifts; ou ainda, num registo mais
direccionado àquilo que nos reúne em torno desta fogueira,
no hay ku para la poesia. perdoem, que dizer!?,
ninguém dará meio chavo por um humorista velho
e ninguém leva a sério um poeta novo
pelo que estou, por assim dizer, morto para as duas bancas
não jogo para ganhar em qualquer dos campeonatos.

todavia, no entretanto fugaz deste frémito
a sodomizar um possível futuro de fama e best-sellers,
um gangue de estrelas vem acotovelar-se
para te caberem no olho esquerdo, o lado que choras
com maior frequência, e num súbito juntos convertemo-nos
nos accionistas maioritários da noite
despedimos as aves canoras e o vento, com justa-causa,
e decidimos apostar todo o dinheiro que esquecemos connosco
em pele
que é um negócio de futuro
mesmo sabendo que a concorrência investe na artificial
mais em voga para hipsters e astronautas.
a poesia, é certo, poderá aguardar-nos noutro planeta
um filão onde milhões julgarão enri/louquecer
(é favor riscar o que não interessa)
e talvez devêssemos agora deixar-nos de rodeios e embarcar
num dos mil foguetões movidos a turbo-inclemência
por que se batem as madonnas dos infinitos,
mas tu és o cultivo e os moinhos
numa só telúrica geografia, simultânea e breve,
e o preço da imortalidade, sabemo-lo, está pela hora da morte
o letreiro deste zoo a céu aberto manda
não alimentar ilusões.

big bang, universos múltiplos, tão-só matéria incandescente
para desvarios de piadas parvas intergalácticas
ânus-luz e confusão do átomo.
no enquanto fugaz deste frémito, meu amor,
único meu combustível,
a minha missão espacial é penetrar-te
e assim ter-te dentro de mim
até que a poesia
nos separe,
amém.
 

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