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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

27
Set19

RITA TABORDA DUARTE - UM PANO ENCHARCADO NAS TROMBAS

 

 


Em princípio não é um objecto
— um poema tem raízes.
Moídas ao caroço do verbo,
com mão de pedra repisamos as palavras
como quem mói farinha para amassar
um pão. O poema é pão
que se leva à boca.
Borrões de aracne,
as palavras trazem presas
e insinuam-se à teia lêveda
do poema.
Muito mais limpas, as palavras, hoje.
E se ditas numa pronúncia lavada e clara,
são ar e fogo: só muito raramente se apega um rasto de saliva,
ou hálito requentado nos poemas mais azedos.
Há poemas mais objectos
do que outros poemas pois se têm frases
de mais peso; se trazem a palavra ferrada
ao chão da realidade não borbulham gasosas
pelo ar artífice:
Deixam lastro, as palavras, e mancham as mãos
com a pasta elástica dos nomes.
Mas não teimo em dizer que as palavras dos poemas
sejam de facto raízes porfiando em terra enxuta.
Estas palavras encasteladas de poesia
como argamassa mole
e húmida — miolo de um pão ainda não intumescido
— não serão sequer palavras
pelo menos daquelas que se levam na cova de uma mão:
só um cadinho fermentando, uma púcara
de afecto e levedura ou somente
um pano encharcado nas trombas do coração.
UM PANO ENCHARCADO NAS TROMBAS (RESUMO)
Abro com as mãos o poema — já duro — do dia anterior
e enterro os dentes rasos no bolor do coração.

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