Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

04
Jul18

ROSA ALICE BRANCO - ANTES DA NOITE NOS OLHOS DO PEIXE

 

 

Ali no molhe só o mar vem dar à mesa.
Talvez por isso as minhas raízes sejam planos
de fuga esquivos a promessas que toquem
o teu corpo. Atrás de nós as árvores seculares
são caminhos como rios que hão-de chegar
ao reverso do mar mas estendes a noite no dia,
o vinho nos copos e um sorriso no olho do peixe que
estaria fresco umas horas antes do anzol. O peixe
aberto no coração do mar é só mais uma dor entre nós
com batatas e salada. O vermelho do tomate
sangra-me o prato. Se fosse um crime seria
mais fácil pôr as armas na mesa e depois esquecer.
Mas sofro o desencanto de estarmos sentados
e a cadeira já não levitar como quando o teu corpo
sabia a camarinhas no orvalho. Entravas pelos poros
da minha pele na ignorância dos nomes na garganta.
Os olhos eram vorazes e as mãos — ou melhor
os dedos — eram as únicas raízes de que precisamos
na vida. O peixe olha a noite antes da noite,
a palidez das nossas vidas como um rio estagnado
tão perto do mar. Saberá que o anzol ainda não veio
colher-nos? O mar inverso dá à mesa. Com o azeite
desenhas a manhã a escorrer no prato. No meu corpo
cresce uma raíz que toca o teu, o mar resvala
para o vale e abre clareiras onde quer que a tua boca
me olhe em descaminho sem toalha, os lábios
bordados de ignorância feliz como o mar, o mar
que entra pelo mar e desagua num amor imprevisível.
Devo desculpas pelos preliminares desastrosos
do poema, agora que transbordo de mais um
de tantos enganos, tantos rios a caminho de nós.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D

Mais sobre mim