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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

20
Set19

SANDRA COSTA - LUZ DE SETEMBRO

 

« – se eu soubesse a palavra,

a única, a última,

e pudesse depois ficar em silêncio para sempre…»

 

Vergílio Ferreira, «Uma Esplanada sobre o Mar», Difel, 1986.

 

 

 

A sequência é simples. Acrescento um dia a outro dia.

Os meses sucedem-se, as estações acontecem e,

sem que sejam necessários milagres, cai sobre mim

a luz de Setembro, essa sombra que sou.

Vem uma flor, depois outra flor e as árvores,

como as nuvens, ao abrigo dos silêncios que subsistem

em certos vocábulos, como ruína, hesitação, relâmpago,

melancolia, acendem-se e mudam de cor.

Algures, cortam os campos ao milho, seca-se e extrai-se

a eira da vagem do feijão, sobem-se vindimas até ao desvão

do mosto e ainda no sismo da vertigem que é a infância

alguém descobre ou perde um templo feito de sol.

Dou um passo e mais um passo. Descalça, sempre

descalça, faça chuva ou esteja calor, que Setembro é

um mês de incertezas, para que me doam menos

os trilhos e as trevas dos desencontros e os mistérios

que poderiam ter ocorrido junto ao mar.

De verso em verso, saio porta fora, no rasto da última

luz de Setembro, essa sombra que sou, como se procurasse

a definitiva palavra de um poema de Vergílio Ferreira e

assim rompesse o lado mais impuro das candeias.

A sequência é simples. Acrescento amor às sombras

que ficarão para sempre.

 

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