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GAZETA DE POESIA INÉDITA

Espaço dedicado à divulgação de poesia original e inédita em língua portuguesa.

GAZETA DE POESIA INÉDITA

25
Set18

TATIANA FAIA - BREVIÁRIO DE PRESENÇAS INCENDIÁRIAS

estou num bar em oxford
a pensar em ti numa sala de espera
num hospital em amsterdão
é exíguo o espaço de um discurso
o momento de pausa o silêncio
hesitante e estudado seguido
por uma confissão implícita
as nossas vidas seguirão
dentro de momentos
e constataremos
com um alívio hipócrita
que duas rectas paralelas
permanecerão para sempre
avessas à colisão

a quatro mesas da minha
martin, inspector sexagenário
empregado numa empresa
imobiliária martela a sua sabedoria
de cliente descontente sobre o relatório
que duas jovens estagiárias
prepararam sobre a condição de ruína
de um prédio devoluto
as legendas e as figuras no relatório
levam martin a especular
que as medições dos caixilhos das janelas
podem bem estar erradas por vários milímetros
as raparigas, ambas na casa dos vinte
querem apenas beber mais gin
e ser deixadas em paz para acolher
o alívio breve de mais uma sexta-feira à tarde

a tarde tolda-se suavemente como um sorriso sério
algures entre o antebraço e a tua mão
que é um estame e a promessa
de um breviário por abrir
essa forma que tem sido um instinto
em certos movimentos
das minhas mãos nele corre um soro
com medicação para baixar a febre
e tu só me contarás isto várias semanas depois

interrompida pela voz de martin
duas oitavas acima daquilo
que a paciência de um santo poderia tolerar
e pelas tentativas das duas raparigas
de o apaziguar com álcool
e argumentos conciliatórios                                                             
e com esse hábito das mulheres de sorrir muito
e abanar a cabeça demasiado submissamente
quando já deixaram de ouvir há muito
eu afundo-me na revelação da
semelhança inesperada
que descubro entre o teu rosto
e o de filippino lippi
no auto-retrato por ele deixado
na capela brancacci
em florença

é verdade que este corpo
esta trivial pobre matéria perecível
que no escuro fez a travessia
de longas arcadas e velhas portas entreabertas
que dormiu em aeroportos, obscuras moradas
sofás de amigos, terraços ao relento
continuará a ignorar a urgência
dos sinais que exigem de nós
fire door please keep shut
este corpo que não sabe impor a si próprio
(como é detestável esta expressão)
um pouco do silêncio de um claustro
no fim de uma longa jornada
está tão fora de si na tua ausência
que é ele próprio uma espécie
de insignificante paliativo:
non est qui consoletur eam
ex omnibus caris eam

quando filippino lippi
pintou o seu auto-retrato
na capella brancacci
ele herdou o trabalho
de dois pintores que davam
pelo nome de tommaso
e que se distinguiam um do outro
pelas alcunhas de masaccio e masolino
ambos partiram antes de acabar o trabalho
masolino para a hungria
masaccio para roma onde veio a morrer
antes de chegar aos trinta anos de idade

muitos anos depois
terminar o trabalho dos outros dois
calhou a lippi porque também
nunca é exactamente no princípio que se chega
e o passado pode ter sido então para lippi
o que só pode ser para um pintor
que chega um pouco atrasado e tem

de interpretar as intenções dos outros
carregar em si os sulcos e as cores e o volume sem peso
dos corpos que outras mãos desenharam nas paredes

masaccio pintou as cenas mais ternas e brutais
por exemplo a expulsão de adão e eva do paraíso
ou um neófito que cai de joelhos
quase completamente nu
exceptuando pelos genitais cobertos
o rosto e o cabelo um pouco longo escorrendo água
numa humildade misturada
com qualquer coisa do receio expectante
a paixão neste corpo intenso e jovem
como o de um supremo atleta
tornada incorpórea como a melancolia
que podia ser a de um santo já sem idade

talvez não caiba num poema dizer
que masaccio inventou na capela brancacci
a pintura do renascimento
a representação tridimensional dos corpos
no desenho
uma técnica que ele emprestou de um amigo
o arquitecto brunelleschi
o que me faz pensar
que o mundo está desenhado
para que quem tenha de se encontrar
se encontre sempre e converse
sobre tudo o que é preciso ser falado
para o que tem de acontecer, aconteça
fora disto é tamborilar com os dedos na mesa
respirar o ar frio
olhar, com metade do bar,
martin com desdém

os pintores da renascença
às vezes desenhavam-se a si próprios
nos seus frescos em companhia de amigos
ou de outros pintores conhecidos
para além de uma horda de patronos
e anónimas musas transformadas
em virgens, santas e ninfas de toda a espécie

os historiadores da arte
notam o ar um pouco desgrenhado
no aspecto de masaccio
no seu próprio auto-retrato
parece que masaccio não queria saber
de cortar o cabelo ou da sua aparência
porque isso lhe tirava tempo
para se dedicar à única coisa que lhe interessava
que era pintar em paz

no autorretrato de lippi
no entanto
a barba feita
o azul do barrete a condizer
com o do olhar
uma atenção comedida e melancólica
entre o desdém e a sensualidade
a barba cuidadosamente feita
as cores do manto que dão
com as da camisa cujo colarinho
termina em duas listas
uma grossa de verde claro
e outra em fino branco
em redor do pescoço
um homem do mundo
com uma carreira cuidadosamente
pensada em frente

lippi o aluno de botticelli
que por sua vez fora discípulo
do pai de lippi,
um frade da toscana
que o tivera por filho ilegítimo 
deixa transparecer talvez
uma ligeira irritação no acto de ser visto
e de se fazer ver
mas sem a intensidade que se vê
no ar de desafio provocador
com que masaccio nos olha de volta
pelos séculos

o que quer que os separe
lippi deixa-nos uma beleza elevada e suave
masaccio a tensão de uma provocação constante
real como a proximidade entre dois corpos
cuja intimidade nunca vai poder ser
de outra ordem que não a de um desejo
absurdo, absoluto e cego
como um edifício que arde
ou uma paixão onde a ternura
ainda não encontrou o seu começo

numa das muitas discussões que existem
dos frescos na capela brancacci
há uma historiadora da arte que escreveu
que lippi teve muitas dificuldades
em harmonizar o seu estilo demasiado turbulento
e expressivo com o trabalho dos dois pintores mais velhos
o resultado é que a sua contribuição
para a capela brancacci
é um pouco envergonhada e inexpressiva

masaccio pintou o próprio retrato
na entronização de são pedro
lippi na crucificação do mesmo santo
o pintor surge um pouco atrás de nero
que disforme aponta com um polegar para pedro
um ancião na cruz peito estreito
cabelos brancos
de cabeça para baixo

os frescos de lippi, masaccio e masolino
escaparam ao desastroso incêndio
que destruiu boa parte do edifício
no final do século XVIII
e o edifício pode bem ter ardido
porque nenhum martin deste mundo
foi cuidadoso o suficiente
para avaliar in loco notas de aprendizes novatos

mas se a memória não me falha
algumas laranjeiras dão frutos num pequeno claustro
com um aspecto descuidado e abandonado
e apodrecem no chão no fim do verão
entrando recebe-nos esta precisão inesperada dos rostos

cuja substância e subsistência
o jogo de olhares, intensões, paixões
prevalece sem nos alienar
e não é de todo alheia à ironia
de elos entre proximidade e destruição
patentes em encontros acidentais
de gente surpreendida a meio do seu amor
expressões apanhadas no último instante
antes da destruição, do colapso, da reparação
no absoluto de si próprias
voraz presença
de todos os pormenores de repente
inevitáveis e irrepetíveis na nossa
travessia pelo incêndio

 

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